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A SÍNDROME DE PETER PAN

Este é um alerta aos gestores contra a pequenização da missão de desenvolver.

A estória do eterno garoto, herói dos meninos todos conhecem. Muita gente também conhece o Livro de Dan Kiley cujo título copiei neste artigo.

Ser o eterno garoto, viver brincando sem se preocupar com escola nem com futuro, num permanente desfrutar do momento atual era a garantia dada aos habitantes da terra do nunca.

A genial escritora estabelece esse procedimento como um grave distúrbio daqueles que não admitem assumir as responsabilidades e os riscos que a vida lhes impõe.

Comecei assim para discorrer sobre o que entendo ser um conjunto de grandes oportunidades para a evolução socioeconômica da sociedade brasileira e que algumas comunidade e pessoas tem deixado escapar. Vou repetir para fixar: o Brasil tem as melhores condições existentes no mundo para a aqüicultura. Nossa carcinicultura é alvo da inveja e reação dos que não conseguem acompanhá-la. Basta isso para estabelecer que temos ai uma grande chance de, com pouco esforço desenvolver uma classe média rural baseada na atividade aqüícola e formada por um contingente humano que hoje é socialmente desassitido e economicamente nulo, para não dizer oneroso.

A aqüicultura requer treinamento mecânico, o que pode ser ministrado a pessoas sem escolaridade e é a síntese tecnológica da mais antiga atividade econômica exercida pelo homem: a pecuária. Aí entá também a raiz da sua falta de aproveitamento.

Quem não sabe criar peixe? Todo mundo sabe! Criar peixe é como criar galinha. E quem não sabe criar galinha?

- Minha avó criava galinha. Até ela sabia! Já ouvi muito isso, e é verdade. Muitas avós já criaram, quase todas as bisavós já o fizeram e todas as suas mães. Se falássemos da Índia, Japão e China poderíamos substituir galinhas por peixes e estaríamos falando a verdade.

Criar peixes e galinhas é portanto fácil. Estamos de acordo.

Difícil é ganhar dinheiro criando peixes e galinhas. Difícil não. Eu diria trabalhoso. Precisa ter planejamento, disciplina, conhecimento, treinamento e rotina. Isso vai produzir regularidade de oferta, boa qualidade e escala. Sem estas coisas pense em criar peixe para comer e dar ou vender aos amigos e vizinhos. Não faça disso profissão, você não terá sucesso.

Quem produz 50 quilos de peixe por mês, alimenta a família, quem produz 500 quilos abastece a feira do povoado perto do sítio. Quem produz 3 toneladas esgota o mercado e estraga o negócio, mas quem se associa com outros produtores e produz 100 toneladas por semana tem várias empresas querendo comprar seu produto e bancos lhe oferecendo crédito. Daí ser a aqüicultura, a atividade que mais propaga o associativismo. Também não é atividade exclusiva de grandes, ao contrário, por maior que seja ninguém é tão grande assim na aqüicultura. Por isso ela pode ser caracterizada como atividade para pequenos. Parece contraditório mas essa é a característica que faz dessa atividade uma ação associativa por excelência Sem ele fica difícil ganhar dinheiro. Com ela aquela classe média de que falei no início nascerá naturalmente.

Quando defendo o fomento da aqüicultura pelo Estado como forma de gerar empregos rurais e industriais, em grandes projetos e não em, com perdão da palavra, projetos-piloto que nunca levaram à nada, estou falando em estabelecer para uma geração pouco ou nada alfabetizada a  possibilidade de escapar da infâmia degradante dos cartões de alimentos e das cestas básicas e garantir par seus filhos um futuro de formação educação e segurança socioeconômica de independência da esmola estatal.

 Perdemos muitas oportunidades. Quantas colônias de pescadores ‘venderam’ suas terras para que empresas instalassem fazendas de camarão quando poderiam, orientadas, haver criado elas próprias estas fazendas? Quem me lê pode estar pensando que não havia crédito. Havia sim! E bem barato. Credito para associações de pequenos produtores com juros de agricultura familiar. Faltou ação das entidades de apoio aos agricultores e pescadores. Faltou disposição para libertar aquelas populações da cesta básica e periódico seguro-desemprego.

Eu não duvido que o Presidente da República tenha, agora, essa disposição. Mas é preciso fugir da síndrome de Peter Pan, a sociedade não pode ter medo de ser grande, de pensar em crescer. Os gestores da assistência técnica e dos programas de desenvolvimento sobretudo, não podem, por qualquer razão, promover programas e projetos mediocrizantes. As entidades de fomento não podem continuar tentando criar projetos comunitários que vão garantir 3 quilos de peixe por semana pra cada família. Isso é a perpetuação da miséria e da escravidão das comunidades ä assistência social.

A idéia é libertar.

Ou não?

 Sérgio Pinho – Engenheiro de pesca


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