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A
ESMOLA, A QUEM VICIA ?
Sérgio
Pinho – Engenheiro de pesca
A
pesca brasileira tem muito por fazer. Falta-lhe legislação
adequada, crédito específico, estabilidade gerencial e ordenativa
mas, acima de tudo falta-lhe por parte do Estado, uma visão
de negócio.
Desde
muito remotamente a atividade foi cuidada de forma marginal pelo
poder público. Era um negócio
de extrativismo ordenada por uma “repartição pública”
denominada Inspectoría de Caça e Pesca. Com as colônias de
pescadores, passou a desempenhar um papel quase para-militar na
vigilância da costa e nessa condição usufruiu por longos anos do
apoio e proteção da Armada brasileira. Ai começou uma história
que em nada se diferencia do feudalismo da idade média onde se
trocava subserviência e conformismo por comida e proteção, coisa
que poderíamos hoje traduzir como cartão cidadão e cesta básica.
Com
o crescimento da população nas cidades, incumbiu-se de provedora
de pescado numa missão também tratada de maneira deturpada diante
da sua real característica. Mais como heróica pelas dificuldades
que apresentava e folclórica ou romântica pelo caráter
aventureiro e destemido de seus membros. Numa nação nascida do
cruzamento de navegantes aventureiros com libertários locais e românticos
africanos era de se esperar que sobre os trabalhadores do mar
pairasse essa mística de passionalidade e destemor, muito mais que
a fama de modernidade e tecnologia que o mundo da pesca experimentou
a partir da segunda década do século XX. Da impossibilidade de
mudar essa visão advêm os sucessivos equívocos da sociedade
brasileira na administração da pesca como atividade econômica e
de seus participantes enquanto grupo social. Faltou educação
formal e profissional para um grupo que tinha
atividade definida. Os pescadores foram primeiramente
segregados na “proteção” que receberam do Estado. Nessa condição
continuaram analfabetos e não evoluíram na tecnologia que a
modernização da sociedade exigiu deles. Analfabetos e sem força
econômica ou política, foram expulsos de suas terras pelo avanço
imobiliário e pela ignorância, que aliados transformaram a maioria
das colônias de pescadores em favelas.
Quando
na década de 60 foi criada a SUDEPE, órgão federal para o
desenvolvimento da pesca foram os pescadores segregados ao invés de
integrados. Criou-se uma estrutura de proteção clientelista para
os chamados pescadores artesanais e outra para o atendimento de uma
suposta pesca industrial que se imaginava composta de um grupo de
modernos empreendedores que levaria avante o setor pesqueiro
nacional. Na primeira, as colônias de pescadores eram assistidas
com créditos a fundo perdido, doação de freezers para conservação
do peixe e “libertação” dos atravessadores, criação de
cooperativas artificialmente implantadas onde não havia qualquer noção
de associativismo e a construção de inúmeras estruturas pelas
praias brasileiras sem a devida instituição de programas de
sustentação das mesmas.
Os
freezers doados em solenidades bizarras de paternalismo explícito
gelaram cerveja nos bares de praia e as estruturas não funcionaram
mais que os dias passados até precisarem da primeira manutenção.
No
outro lado crédito barato para implantação de indústrias e
construção de barcos. Quê indústrias? Quê barcos? Não
interessava. O Importante era pegar o dinheiro, construir qualquer
coisa moderna, muito moderna. Para não ser injusto, dois ou três
dos grupos pesqueiros nacionais nasceram ai. Todo o resto foi negócio
de momento e não prosperou como deveria.
Errou
o governo. Não pelos créditos liberados, mas pelo fosso e a cerca
de arame que construiu entre os dois grupos. Fomentou uma disputa
inexistente entre pesca industrial e pesca artesanal como forma de
fortalecer-se perante ambos até que esta disputa se tornou real
pelo aumento de esforço de pesca sobre os cardumes compartilhados.
Condenou os filhos e netos de pescadores artesanais a nunca chegarem
a empresários e proibiu as empresas de aproveitarem a mão de obra
experiente das comunidades dos pescadores artesanais.
O
prejuízo maior, no entanto, foi impedir para sempre (?) a formação
de uma sociedade pesqueira com tradição e competência forjada na
vivência.
O
que nos foi legado foi um grupo que vivendo de uma atividade
economicamente claudicante ainda precisa da esmola estatal da criação
de, pasmem, programa de alfabetização de pescadores como o
anunciado pelo Secretário Fritsch há algumas semanas. Oxalá o
termo sempre tenha sido aqui erroneamente empregado e possamos
sonhar com um neto de pescador comandando sua empresa daqui há uns
20 anos. As perspectivas no entanto não são estas.
O
que vemos no Brasil é o aprofundamento do fosso entre as duas
categorias, enquanto o resto do mundo trabalha para mesclar a pesca
no que concerne ao uso de tecnologia e diferenciando-as pela escala
de produção.
As
colônias de pescadores não precisam ser depositárias da obsolescência
nem os programas de Governo à elas dirigidos precisam ser
segregacionistas ou paternalistas. Alguns comentários sobre o que
se prepara na Secretaria de Aqüicultura e Pesca nos deixam
preocupados com o rumo que o Governo vai querer dar para o setor.
Permita Deus que o que a nova Secretária tão esperada pelos que
vivem da aqüicultura e da pesca não se deixe contaminar pelo
desejo de “doar e proteger como filhos os pobres pescadores”,
como fizeram no passado os auto-intitulados benfeitores da pesca. O
Secretário Fritsch precisa estar atento para não se deixar
encantar pelo paternalismo que gera bajulações em troca de esmolas
e dependência em troca de clientelismo. Diz, com sabedoria o baião
de Luiz Gonzaga que esmola vicia o cidadão. Hoje sabemos que vicia
mesmo, mas vicia mais quem a fornece, que passa a se sentir admirado
e imprescindível, do que àqueles envergonhados receptores que o
fazem por falta absoluta da opção de dignidade que seus
“benfeitores” não lhes proporcionam.
Sérgio
Pinho – Engenheiro de pesca
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