|
A
CULPA É DA PESCA?
Neste fim se
semana tivemos notícia de mais um derramamento de resíduos tóxicos
na baia da Guanabara que interditou para o uso por banhistas e pescadores
as praias de Ramos, Fundão Ilha do Governador e logicamente todas
as áreas adjacentes a estas. Ainda não está bem explicado, ou pelo
menos eu pelas notícias que ouvi, não pude ainda interar-me completamente
quais elementos tóxicos foram lançados assim como não está bem definido
quem foi o agente mecânico nem a responsabilidade civil de mais
esse “desastre ambiental”.
Quantos
foram nesta semana? Dois ou três? Quantos no último mês? Quantos
só em 2.003? Todos eles com ação direta sobre córregos, rios e o
litoral onde desovam e se desenvolvem várias das espécies de interesse
econômico para a pesca assim como dezenas de espécies forrageiras
e o plâncton que as vai (ou ia) alimentar.
É
importante, quando se avalia uma situação dessas, ter em mente o
processo conhecido como cadeia alimentar. Quando se captura uma
determinada espécie, mesmo que se o faça além do que seria razoável
para a conservação, cria-se um vácuo de espécimes que permite ao
alimento dessa espécie se desenvolver (por falta de predador) com
maior abundância. A abundância de alimento favorece o desenvolvimento
daquela espécie que foi capturada em demasia, que passa a aproveitar
melhor os frutos da reprodução com maior número de indivíduos para
o recrutamento (disponibilidade do indivíduo para o estoque aproveitável
na captura ou reprodução). Isso tende a levar a espécie ao equilíbrio
anterior, consideradas unicamente as variáveis aqui descritas (captura,
reprodução, predação natural). Nessa hora é que as interferências
externas causam danos, muitas vezes de gravidade muito maior que
a divulgada, que vão afetar a reprodução, o crescimento e o recrutamento
das várias espécies utilizadas pelo homem.
Quando
ocorre a escassez de determinada espécie costumamos avaliar o fato
examinando exclusivamente as ações diretas exercidas sobre ela e
as soluções são sempre no sentido de proteger os indivíduos. Não
se busca as causas efetivas do declínio nas capturas ou ocorrências.
Invariavelmente aparece o culpado: “a pesca predatória”, termo tão
corriqueiro como mecânico para encontrar soluções para problemas
que muitas vezes estão longe daqueles que capturam os peixes. Ao
olhar fácil de quem não tem compromisso com a conservação da atividade
pesqueira ou dos que simplesmente buscam um responsável para se
eximirem eles mesmos da culpa, é claro que quem causa o colapso
de uma espécie é quem captura aquela espécie. Na maioria das vezes
comete-se ai um “erro de compêndio”: proíbe-se a pesca para que
a espécie possa se recuperar, sem qualquer outra ação sobre agentes
que estão matando a sua fonte de vida, seja a água ou os alimentos
necessários ao seu desenvolvimento. Não se resolve o problema, é
claro, ainda que se dê a impressão de que se está fazendo o que
deveria ser feito. A proibição da pesca serve sempre como indicador
de proteção e acima de tudo como indicador do culpado pela degradação
do estoque. Quando não há a recuperação do estoque nunca se avalia
que não foi a captura a causadora do dano mas a corrupção dos outros
meios de subsistência como o alimento ou a qualidade da água. O
mais comum é insistir em suspender a captura com a desculpa de que
é necessário mais tempo de repouso para um repovoamento que não
virá se não forem corrigidos os vícios que degradam o ambiente.
É
sempre assim nos derramamentos de óleo ou de resíduos que cada dia
com mais freqüência ocorrem no Brasil. É assim também em relação
a construção desenfreada de barcos sem licença prévia de pesca que
se vê país a fora. Multas milionárias cujos valores arrecadados
nunca chegam aos verdadeiros prejudicados que são os pescadores.
Proibição do exercício da pesca que joga famílias inteiras, da pobreza
à indigência. Ações maquiadoras de breve assistencialismo enquanto
o fato é notícia e nenhuma ação precautória que barre a destruição
da vida nos rios, lagos e baías da nossa costa. E a “pesca predatória”
será sempre a culpada pela falência da atividade pesqueira. Não
parece muito óbvio para que seja verdade absoluta?
A
limitação do esforço é um elemento imperativo no ordenamento de
uma pescaria. O Controle é também indispensável à perpetuação da
rentabilidade do negócio, mas, quando se tenta compensar a degradação
de elementos ambientais com a redução ou a simples suspensão da
captura o que se está fazendo é decretar o colapso da pescaria.
A sardinha poderia ser um bom exemplo, mas existem outros que nos
vão em breve desnudar a iniqüidade das ações que hora se põem em
prática.
A
pesca e os pescadores, ao invés de causadores, são na verdade as
primeiras vítimas da degradação de rios, lagos e mares. São eles
que ficam sem sustento e são eles também os primeiros acusados de
um crime que raramente cometem.
Sérgio
Pinho – Engenheiro de pesca
Comentários Anteriores:
voltar
|