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PACIÊNCIA
OU TENACIDADE?
Falando do descaso a que foi submetida a pesca nos últimos
anos o Presidente Lula traçou belas imagens para garantir
que seu governo terá com o setor, o cuidado que seus antecessores
preferiram dispensar a outras áreas. Cuidado esse já
demonstrado quando criou a Secretaria Especial de Aqüicultura
e Pesca que se espera, seja em breve transformada em ministério
definitivo.
Na sua fala emocionada e que emocionou muitos dos presentes, alguns
sentados perto de mim, vi, chegaram às lágrimas, o
Presidente disse que a última reunião sobre pesca
ocorreu no governo Geisel; que pescador - citando o velho e o mar
de Ernest Hemingway - é o exemplo da paciência e; disse
também que para ser médico o cidadão precisa
de diploma, pra ser jornalista precisa, mas nem tanto, mas para
ser político não precisa. Pois é sobre essas
palavras do Presidente que gostaria de comentar, já que com
os 25 longos anos que levo como testemunha deste mundo de trabalhando
na pesca brasileira aprendi um pouco também da alma do pescador.
Começo pelo diploma já que ali foi anunciado um necessário
programa de alfabetização para tentar resgatar da
escuridão do analfabetismo 70% dos trabalhadores da pesca
artesanal. É com certeza daí que vem a posição
desvantajosa que ocupamos como produtores de pescado. Sendo analfabetos
nossos pescadores não conseguem acompanhar nem absorver as
novas tecnologias que o mundo põe todos os dias a disposição
da produtividade no setor pesqueiro. Constatamos pois, que se para
ser político ou jornalista não se precisa de diploma,
pra se pescador com certeza. Para produzir pescado com eficiência
e sustentabilidade a pessoa precisa ter formação profissional
específica, treinamento permanente, educação
ambiental e consciência conservacionista, coisas que se aprende
nas escolas profissionalizantes que os governos do Brasil prometem
desde muito e que nunca fizeram. Preocupo-me porque hoje também
ninguém fala em resgatar esse passivo.
Não são fáceis as coisas para um presidente
preocupado com o seu povo como queremos crer que é o nosso.
Quando seu antecessor Fernando Henrique Cardoso assinou o decreto
que equalizava o preço do combustível dos barcos brasileiros
aos pagos por seus concorrentes estrangeiros eu também estava
lá e ouvi daquele presidente uma fala marcante. Disse ele
que ali estava um exemplo de que um governo não faz as coisas
rápido como quer ou como precisa. "Não havia
ninguém contra a concessão daquele benefício,
ao contrário, estavam todos trabalhando a favor, mesmo assim,
do dia em começamos a trabalhar nisso até agora, levamos
2 anos", disse o Presidente com a concordância de todos
os presentes.
Entre aquela reunião no gabinete presidencial e a do governo
Geisel referenciada pelo Presidente Lula muitas outras ocorreram.
Planejaram com certeza educação de pescadores e aumento
da produtividade; muitos planos de modernização da
frota vi em documentos bem elaborados e programas de construção
de modernos barcos também foram difundidos como programas
de governos. O que não houve por parte do Presidente Cardoso
nem dos seus antecessores foi ação política
com vistas a materializar esses programas em resultados práticos
para o setor e a sociedade em geral. O que esperamos com o compromisso
de um presidente que literalmente pegou nos peixes enquanto recebia
representantes de sindicatos no Palácio, é que possamos
começar a contar com outras letras a história da pesca
no Brasil.
Não há paciência no pescador. Há persistência.
Talvez ficasse melhor citar Victor Hugo e seu Os Trabalhadores do
Mar quando contando do trabalho de Giliatt para salvar sua embarcação
do escolho diz que "A resolução enche os olhos
de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão
dos pensamentos tímidos. Os teimosos são os sublimes".
Não é à toa que os olhos dos pescadores são
quase sempre vermelhos. Sua cor vem do fogo resoluto dos que como
o "velho" Santiago de Hamingway não são
pacientes, mas obstinados e como Giliatt tem seu segredo de luta
na palavra: perseverando. Foi assim que se conseguiu a criação
da Secretaria de pesca. A história não se reescreve,
se continua a escrever com ou sem os erros ou o brilhantismo do
passado. Vamos em frente. Sempre.
Sérgio
Pinho – Engenheiro de pesca
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