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As
latinhas voltaram
Sérgio
Pinho – Engenheiro de pesca
No início deste ano o
CONEPE solicitou do governo a redução da tarifa de importação de
atum congelado e lombo de atum, destinados à indústria conserveira.
A justificativa era de que não havia oferta do produto por barcos
brasileiros que pudesse sustentar a demanda das empresas já que o
consumo de atum vinha crescendo e a produção nacional está
estagnada.
O crescimento da produção
atuneira no Brasil, ocorreu unicamente naquelas espécies destinadas
ao consumo fresco em forma de sushi e sashimi. Também cresceu a
produção de espadarte, produto dirigido ao consumo in natura. Já
a indústria de conserva utiliza principalmente o bonito de barriga
listada e a albacora de lage. Estas espécies são hoje em dia
capturadas principalmente pela frota de isca viva na maioria baseada
na cidade de Itajaí, em Santa Catarina.
A frota de isca viva vem
diminuindo em face de uma acirrada disputa entre pescadores de atum
e de sardinha da região sul do Brasil e já não passa de 35
barcos. Estes acusam aqueles de serem os responsáveis pelo declínio
da produção de sardinhas já que a espécie é utilizada pelos
atuneiros como isca. Sem iscas os atuneiros não podem pescar. Sem
pesca a indústria de conserva não tem matéria prima e se vê
obrigada a importar de países onde há produção. Com em casa que
falta pão todos gritam e ninguém tem razão, começa ai um drama
de intrincadas nuanças e com contornos muitas vezes surrealista.
Custa 11,5% , o imposto
de importação de atum congelado ou lombo
para a industria. Estão fora desta taxação os paises do
Pacto Andino. Peru e Equador seriam pois os fornecedores
preferenciais da matéria prima para nossas enlatadoras. Como o atum
enlatado, importado daqueles países também tem tratamento tarifário
preferencial, nossos hermanos preferem vender um produto com maior
valor agregado e com justíssima razão, criar empregos lá. Ai
falta matéria prima para nossas industrias na área de preferência
comercial o que obriga a busca em mercados como África do Sul e
principalmente Tailândia, essa no entanto, com o acréscimo de um
frete muito maior e com imposto de 11,5%. Depois de processado e
gerar empregos no Brasil o produto nacional vai concorrer na gôndola
do supermercado com latas equatorianas e peruanas que entram aqui
sem pagar imposto.
Nos últimos 4 anos
depois de um rearranjo industrial e uma agressiva campanha publicitária
para popularizar o atum junto aos consumidores o mercado brasileiro
foi reconquistado pelas marcas nacionais que passaram a ocupar a
quase totalidade dos espaços comerciais. A demanda como era de se
esperar cresceu respondendo à melhor qualidade e melhores preços.
Nossa produção de matéria prima, no entanto, como foi dito no início
continuou nos mesmos níveis do passado.
O pedido de redução de
tarifas feito pelo CONEPE em março deste ano demorou muito para ser
analisado e a autorização para 5 mil toneladas não será
suficiente para cobrir o déficit acusado pela indústria. O
resultado está estampado no título deste comentário: as latinhas
voltaram. Latinhas do Equador e do Peru, aproveitando campanhas
institucionais de empresas brasileiras e aumento de consumo de
milhares de desempregados nacionais que magicamente criam naqueles
paises, empregos que poderiam ser nossos. Como sabemos a indústria
de enlatados é a mais intensiva de mão de obra que se conhece.
Como para quase todo
problema existe mais de uma solução, algumas delas até bem
simples, nos permitimos apontar o que poderia ser feito.
Logicamente o que melhor
se pode fazer é aumentar a produção nacional. Com potencial de
mais de 100 mil toneladas para o bonito e a albacora utilizados pela
indústria, capturamos hoje apenas um quinto desse total diante de
um consumo industrial que já chega perto de 40 mil toneladas e deve
passar desse total neste ou no próximo ano. Para aumentar a produção
temos que, urgentemente ter barcos que possam nos libertar das
importações e das centenas de pesqueiros estrangeiros que freqüentam
nossas costas abandonadas. Isso também não pode demorar em razão
do estabelecimento de cotas de captura pela ICCAT
mas sobre isso nem vamos falar agora pra não fugirmos da
questão do abastecimento da indústria.
Com o próximo defeso da
sardinha virá também a paralisação da pesca de atum com isca
viva (proposta do grupo de gestão da espécie), e mais uma
vulnerabilidade da nossa indústria estará exposta.
Precisamos de barcos e novas tecnologias e isso não pode
esperar sob pena de perdermos ainda mais tempo do que temos perdido.
O Brasil tem fugido da
solução dos cerqueiros como provedores de atum para a indústria.
Existe o temor de que os barcos de isca viva venham a perder suas áreas
de pesca e para isso são requentados temas como a captura
incidental de golfinhos que não existem nas águas do Atlântico e
que mo Pacífico (onde existia) já foi solucionado a mais de 15
anos.
Enquanto
isso, o único remédio é o humilhante estabelecimento de pequenas
cotas de importação não tarifada e o reconhecimento de que
protegemos os empregos na indústria de outros países.
Sérgio
Pinho – Engenheiro de pesca
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