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Cabeça de Camarão

Sérgio Pinho – Engenheiro de pesca

                       A indústria do camarão rosa no Norte do Brasil está em crise. A maioria das empresas já parou de investir e há tempos o setor vive um processo de autofagia com o sucateamento da frota, o fechamento de indústrias, concordatas, pedidos de falência e um desentendimento geral sobre quais os verdadeiros motivos da crise. Os barcos foram na maioria transferidos ou arrendados para os Mestres e suas tripulações, como forma de livrar as empresas armadoras das obrigações com suprimentos e encargos. Ações paliativas que em grande parte endividaram trabalhadores que antes viviam de salário e produção, aumentando a agonia de uma pescaria que busca saídas para voltar aos tempos de bonança que viveu outrora. Homens e mulheres que dedicaram suas vidas a uma atividade que vêem definhar. É como se na pesca do camarão só houvesse baixa mar. Nunca mais uma maré alta para refazer as forças de quem tanto luta.

            Nesta passada semana, mais uma vez o setor se reuniu em Belém para avaliar a crise e propor soluções. Participaram os Sindicatos envolvidos com o tema e o IBAMA. Estranhamos a ausência da recém criada Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca.

            Não se pode negar a crise porque passam os produtores de camarão da região Norte. Basta olhar para os rostos contrafeitos e preocupados. O que chama a atenção, no entanto, é o grande número de motivos apontados para a situação. Como no dito popular, cada cabeça é uma sentença. No caso do Pará às vezes duas, três ou cinco sentenças. As causas, acham, são muitas. A solução apresentada é sempre a mesma: parar a pesca por um período maior de defeso. Solução que, em desespero, muitos aceitam enquanto se entreolham culpando-se mutuamente. Não sem a ajuda oficial que tenta fazer crer que está no setor privado a fonte de todo o mal.

           Quem conhece um pouco daquela gente sabe que ali estão pessoas que ajudaram a construir o setor pesqueiro nacional levando para a Amazônia a melhor tecnologia existente no mundo e lançando-se na conquista de marcados sempre exigentes e competitivos. Assim, não gostaria de, neste comentário, apontar culpados: não seria justo com quem tanto tem trabalhado, de forma tão dura e insalubre para gerar riquezas para o Brasil. Vamos tentar avaliar o que se passa de fora das paixões que não deixam de contaminar os envolvidos.

              Olhando a atividade como um todo, podemos ver que a crise se faz de uma mistura de elementos estruturais e conjunturais. Na estrutura temos o sucateamento da frota, o desgaste tecnológico do conjunto industrial de Belém e as alterações do sistema produtivo com a entrada da carcinicultura no mercado antes exclusivo do camarão selvagem dentre outras causas.

            Como elementos conjunturais aparecem as crises de mercado que derrubaram a demanda por sucessivos períodos de traumas políticos que sempre se refletem diretamente nas atividades econômicas. A longa crise econômica japonesa e os problemas do Governo Norte-americano exemplificam bem o que falamos por se tratar de nossos dois principais (para não dizer únicos) mercados. Mas tem mais: a produção dos cativeiros equatorianos, que no passado concorria com os menores tamanhos da grade de produção (como faz hoje a carcinicultura brasileira), volta, depois do desastre da mancha branca (doença que dizimou os cultivos daquele pais), com um novo modelo de produção que, usando menor densidade de estocagem e maior tempo de cultivo, oferece talhas maiores e torna a assombrar como já fez no passado, quem vive da captura. Se isso ainda diz pouco, vejamos o aumento dos custos de produção (só o diesel em 2003 já subiu 29,93%) enquanto o preço do camarão caiu mais de 3 dólares por Kg.,  este caiu de quase 3,9 para 2,8 reais em menos de um ano. É muita espinha numa piaba só.

             Por tudo isso, e com todo o respeito aos colegas que propuseram o aumento do defeso como remédio para crise é que peremptoriamente digo que a solução proposta é mais um erro dentre os muitos que o Poder Público já cometeu no gerenciamento daquela pescaria. Se queremos permitir maior tempo para o crescimento dos camarões juvenis porque não vedamos a pesca por 4 ou 5 meses (o que já seria um exagero) somente nas principais zonas de crescimento como o litoral e a área conhecida como lixeira, sem obrigar a frota a apodrecer no cais? Quantos daqueles barcos vão ter condições de voltar a pescar depois de 4 meses parados?

           Existem muitas outras maneiras de se proteger a recomposição de um estoque, e com as tecnologias disponíveis atualmente não tem cabimento entoar sempre a mesma cantilena de simplesmente parar de pescar. Quem garante aos armadores e pescadores que depois de 4 meses parados a pesca voltará com possibilidades de cobrir seus prejuízos? Quem garante que a zona pesqueira do Norte não será, como já foi, invadida por centenas de barcos vindos do atlântico Norte, aproveitando-se do vazio de pesqueiros e da ausência de fiscalização e guarda?

E no final, será que o problema é mesmo a queda na produção? Por tudo o que temos acompanhado na cadeia produtiva do camarão selvagem esta visão não se sustenta. Não será que estamos precisando capturar cada vez mais para compensar a ineficiência do modelo imposto ao setor privado, que aumenta a cada ano o ponto de equilíbrio da atividade?

É fato que a captura de camarões só voltará a ser um negócio lucrativo para a sociedade e para o pais com a produção de indivíduos maiores, o que é hoje economicamente inviável na carcinicultura. Entendemos que é por ai que deve ser o ordenamento da pesca. Monitorar os barcos. Monitorar as capturas em tempo real. Fechar momentaneamente aquelas áreas onde se esteja capturando camarões pequenos determinando a saída de todos os barcos que ali operam para outras áreas. Estabelecer defesos por zonas ou de áreas onde se detecte a ocorrência de um nível de juvenis que justifique a retirada da frota daquele para outro nicho, etc.

    Os armadores estão precisando de soluções. Não é justo que sejam iludidos. Não é justo que não recebam respostas que pelo menos apontem caminhos a seguir. Seguramente ninguém sustenta o aumento dos defesos (como está proposto) como saída para a crise. Se eu não posso dizer que resolvo o problema com a solução que proponho, é que na verdade, não tenho solução à propor. Então por que insisto na minha idéia?

Se tem falado muito em eficiência na produção pesqueira. É preciso, assim, ser eficiente desde o planejamento da atividade. Os ordenadores da pesca não podem agir como se tivessem na cabeça, o mesmo que os camarões.

 Sérgio Pinho – Engenheiro de pesca


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