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Valor
Agregado X Qualidade do Pescado
O
valor agregado em produtos de pescado não deve necessariamente
estar vinculado à elaboração de produtos sofisticados
e modernos, mas sim prioritariamente à qualidade intrínseca
do pescado ou matéria-prima utilizada. Atualmente, o investindo
em qualidade é considerado o grande diferencial de um produto
ou marca. Dentre os produtos de origem animal, os peixes são
os mais suscetíveis a processos de deterioração.
Tal perecibilidade do pescado fresco pode ser explicada devido à
ação de enzimas autolíticas, ou seja, do próprio
pescado, e pela relação menos ácida de sua
carne, que favorece o crescimento microbiano. Também a maioria
da gordura dos peixes mostra maior susceptibilidade à deterioração
pela rancidez, devido principalmente à elevada insaturação
de seus lípides. O pescado capturado sofre uma série
de transformações bioquímicas, inicialmente
associada com a degradação de vários compostos
presentes na carne e conseqüente ocorrência do rigor
mortis. Nessa etapa prevalecem as condições de anaerobiose,
isto é, a falta de oxigênio, e ocorre a formação
de ácido láctico, causando abaixamento do pH do músculo
entre 6,0 a 6,5. Tal redução do pH parece influenciar
as reações enzimáticas e a deterioração
microbiana. Sendo assim, a vida útil do pescado é
determinada pelas reações enzimáticas e pelo
número de espécies de microrganismos presentes, fatores
estes dependentes de sua microbiota natural e pelo modo de manuseio
desde sua captura até a estocagem, ou seja, os fatores relacionados
com as boas práticas de manipulação ou fabricação.
Outro fator determinante da vida de prateleira ou vida útil
do pescado é a temperatura de estocagem, que envolve as diversas
etapas de obtenção do produto, desde a temperatura
após a captura ou despesca, a demora na refrigeração,
as flutuações na temperatura de estocagem e a temperatura
final no varejo. É fundamental que, a partir da captura ou
despesca do pescado, sejam adotadas medidas para reduzir ao mínimo
a ação desses fatores, visando à obtenção
de um produto final em condições adequadas de consumo.
Um exemplo de adoção dessas medidas é a utilização
do choque térmico no momento do abate, pois a redução
de temperatura no interior da carne, pela ação da
água com gelo, é consideravelmente mais efetiva e
rápida, quando comparada à ação apenas
do gelo. A lavagem da superfície do pescado com água
limpa e tratada é outro fator que pode auxiliar na redução
da carga microbiana originalmente presente, diminuindo a viscosidade,
fragmentos de vísceras e outras sujidades que contribuem
para o aumento da carga microbiana superficial do pescado e aceleram
sua deterioração. De uma maneira geral, os fenômenos
do rigor mortis tem início até 5 horas após
a morte, cessando em torno de 30 horas após o início,
quando o peixe é armazenado adequadamente sob refrigeração.
Tecnologicamente, é importante retardar o aparecimento do
rigor mortis, pois acredita-se que a maioria dos fenômenos
relacionados com a deterioração somente acentuam-se
após seu término. Devido à alta perecibilidade
do pescado, métodos alternativos de conservação
são muito importantes. Encontram-se assim pescados salgados,
defumados, congelados e enlatados. O tipo de conservação
utilizada irá definir o tempo de vida-de-prateleira ou de
conservação do produto. Entretanto, essa conservação
deve ser tal que o alimento conserve ao máximo suas qualidades
sensoriais e nutritivas, como também sua seguridade de consumo.
Para se obter um produto congelado de boa qualidade, é importante
que a faixa de temperatura, que vai de 1ºC a 5ºC,
seja ultrapassada o mais rapidamente possível, pois é
essa faixa de temperatura que definirá a velocidade de congelamento
e não o tempo total de congelamento. De uma maneira geral,
quando a faixa de 1ºC a 5ºC é ultrapassada
em menos de 2 horas, a qualidade do produto é superior; é
o que se denomina congelamento rápido. O pescado
congelado lentamente não se distingue visualmente do pescado
congelado rapidamente. No descongelamento, entretanto, há
uma perda de fluído intracelular (ou fluído de exudação),
que pode representar até 10 % do pescado congelado. No congelamento
lento, ou doméstico, a grosso modo, há formação
de grandes cristais de gelo que rompem a estrutura celular, afetando
a textura final do produto após seu descongelamento. Portanto,
para iniciar um processamento de pescado, é necessário
a adoção de um sistema eficiente de garantia de qualidade,
de modo a propiciar uma utilização mais condizente
das matérias-primas procedentes da piscicultura ou captura,
através do emprego de uma estratégia de caráter
preventivo, como por exemplo o Sistema APPCC (Análise dos
Perigos e Pontos Críticos de Controle). A adoção
de sistemas de controle de qualidade e o controle dos problemas
sanitários que afetam a saúde pública são
imprescindíveis, mesmo em pequena escala. Igual ao produto
da pesca tradicional, o pescado originado da aqüicultura também
sofre rápida deterioração e está suscetível
a contaminações, necessitando portanto dos mesmos
cuidados básicos durante a manipulação ou processamento
para sua posterior introdução nos diferentes canais
de comercialização.
Autor: Cristiane Rodrigues Pinheiro Neiva
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