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Preservando espécies

07/02/2003

Uma indústria desenvolveu tecnologia para aproveitar melhor o peixe. Depois de tirar o filé, sobra o espinhaço que não é mais desperdiçado. A máquina extrai dele a carne que restou. A polpa de peixe vira filé reconstituído.

"É proteína nobre que não pode ser desperdiçada. Poderia estar na merenda escolar", fala o gerente industrial Uilians Emerson Ruivo.

Em todo o país, o desperdício chega a 150 mil toneladas de peixe, jogadas no lixo a cada ano.

"Depois de 40 anos de pesca descontrolada, o que nós temos são estoques praticamente esgotados. O que nós temos que pensar agora é em recuperar e preservar esses estoques", diz o oceanógrafo Angel Perez.

É o caso da sardinha, também usada como isca na pesca do atum.

"Eu levo até seis dias para encontrar a sardinha e só dois para pescar o atum", explica o mestre de embarcação Antonio Schufre.

Os cientistas apostam na tilápia - peixe de água doce- para substituir a sardinha como isca.

Pescadores mais treinados, técnicas para uma pesca menos predatória. Estudantes de oceanografia ensinam, a bordo, o que aprendem na Universidade do Vale do Itajaí.

"Antes os detritos iam todos pro mar, hoje a gente traz tudo pra terra, conservação de pescado, salvamento", contam o pescador Nicélio Veloso.

Com a redução dos cardumes perto da costa, a indústria da pesca começa e explorar áreas mais distantes.

São as águas de grande profundidade. Hoje, para fazer isso, é preciso arrendar embarcações estrangeiras. E o que elas são capazes de pescar não vai para a nossa mesa.

Peixe-sapo, caranguejo real. Capturados a 1 mil, 1,5 mil metros de profundidade, e imediatamente, processados, congelados e embalados nos barcos que são fábricas flutuantes. A produção acaba indo para o exterior, onde o mercado paga US$ 7 dólares o quilo, cerca de R$ 25. O empresário nacional diz que não tem como comprar barcos assim.

"Agora chegou a hora do governo investir fortemente no financiamento de frota nacional. Só essa frota nacional vai poder fazer com que se perenize a pesca oceânica no Brasil e que traga emprego e renda no nosso país", acredita o presidente da Conepe, Giovanni Perciavalle.

Para evitar que a captura excessiva ponha em risco as espécies de águas profundas, em cada um dos barcos há um oceanógrafo a bordo. Ele observa o que é pescado e as quantidades.

"É de suma importância o controle e a pesquisa para que a gente possa sustentar nossa atividade", afirma o empresário Maurício Castro.

Uma saída para aumentar a oferta de peixes e outros frutos do mar é o cultivo. A chamada aqüicultura. O setor, que há praticamente oito anos não existia, produziu no ano passado 250 mil toneladas.

Criar peixes virou uma nova fonte de renda para o produtor rural Pedro em Chapecó.

"A piscultura me dá um lucro de 50%, 60%. É mais uma fonte de renda da propriedade", conta o agricultor Pedro Dal Piva.

Pedro é um dos 400 agricultores que passaram a criar peixes depois que uma pequena agroindústria se instalou na região. A meta é aumentar a produção de 25 para 100 toneladas mensais e fazer novos produtos como a lingüiça de peixe.

"Nosso mercado é recente. Mas acreditamos que o produto no futuro vai ser bem aceito pela dona-de-casa", opina o empresário Edmar Magro.

No Nordeste, o camarão cultivado em viveiros gera empregos e riqueza para o país. Em cinco anos, a produção anual chegou a 60 mil toneladas. E rendeu US$ 157 milhões - cerca de R$ 500 milhões.

"Qualquer quantidade hoje tem mercado, 70% vai pro mercado de exportação", fala o diretor da fazenda Aristóteles de Oliveira.

A maior fazenda de cultivo de camarão do país, em Valença, no sul da Bahia tem mil hectares de viveiros. O trabalho nos laboratórios de reprodução, lagoas de engorda e no frigorífico, gera 1, 2 mil empregos diretos. Entre eles o de Josefa, que antes, vendia roupa de porta em porta.

"Eu não tinha salário fixo. Hoje eu tenho. Então pra mim e pra minha família foi muito bom", comemora a funcionária da fazenda Josefa de Almeida.

Para os especialistas este é o caminho para aumentar a produção.

"Nós não podemos esperar o milagre dos peixes nos nossos mares e rios. Não dá pra tirar mais deles. Nós precisamos aproveitar melhor o que estamos tirando", diz o oceanógrafo Roberto Wahrlich.



Autor: Jornal Nacional
Link: www.globo.com/jornalnacional

 

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