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Produção do pescado

O Brasil tem 13% da água doce de todo o planeta, segundo a Agência Nacional de Águas. Mas produz apenas 2% do pescado mundial retirado de rios e lagos. A reportagem de hoje da série especial sobre a pesca mostra por quê.

06/02/2003

As redes apanham por ano cerca de 200 mil toneladas de pescado nos rios e nos lagos do Brasil. Outras 144 mil toneladas vêm de criações em cativeiro, produção que cresce em média 20% a cada ano. E o país tem potencial para muito mais.

São seis grandes bacias hidrográficas: a Amazônica, do Nordeste, do Leste, com a bacia do São Francisco, do Paraná, e do Araguaia. mas o país produz somente 2% do pescado mundial segundo a FAO, a organização das Nações Unidas para a agricultura e a alimentação.

"A pesca passa pela necessidade de infra-estrutura no que diz respeito a câmaras frigoríficas e fábricas de gelo, como também a criação de peixes e crustáceos em várias regiões do país", informou o presidente da Confederação Nacional dos Pescadores, Walzenir Falcão.

De cada 10 peixes de água doce, três saem do Estado do Amazonas, que tem sérios problemas de armazenagem. Seria necessário pelo menos o dobro de câmaras frigoríficas para ter estoque regulador e segurar os preços durante a entressafra do pescado.

Há 20 anos não existem linhas de crédito para renovação da frota. Os barcos da Amazônia transportam os peixes de forma artesanal. Os pescadores passam vários dias seguidos nos rios. O pescado se acumula em caixas de madeira e os cardumes que ficam embaixo acabam esmagados. A Federação dos pescadores do Amazonas diz que o desperdício é de 10%. O Ibama afirma que de cada 10 peixes, três vão para o lixo.

Na Bacia do São Francisco o maior problema são as barragens e açudes, construídos para as hidroelétricas. Eles impedem a piracema, a reprodução natural dos peixes, o que limita o número de espécies.

"Não podemos pensar só no peixe que seria como pensar só no ovo, sendo que quem está morrendo é a galinha que são os nossos rios", compara o engenheiro de pesca, Geraldo Bernardino.

Na Bacia Amazônica, com mais de dois mil tipos diferentes de peixes, apenas oito tem valor comercial nas feiras e mercados da região. A procura por essas espécies é tão grande que representa uma ameaça.

"A velocidade de captura está acima da velocidade de reprodução. Está tendo redução de tamanho em espécies de extrema importância econômica para o Estado", alerta o gerente do Ibama da Amazônia, José Leland Barroso.

Em 32 lugares do Amazonas, a pesca com rede está proibida porque esse tipo de pesca não é seletiva: acaba pegando peixes muito pequenos. O tambaqui, por exemplo, deveria ter no mínimo 55 centímetros para garantir a reprodução da espécie. Alguns dos que estão à venda não têm mais que 30 centímetros.

Mais de cem espécies amazônicas poderiam ser usadas para alimentação, mas não são apreciadas pela população local, que prefere os peixes com escamas em vez dos peixes de couro. Em outros mercados do país e do exterior existe procura por estes peixes, que são exportados depois do beneficiamento.

No laboratório do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, os cientistas desenvolvem produtos como hambúrguer, salsicha, picadinho, quibe, tudo de carne de peixe.

"A tecnologia é desenvolvida para deixar todos esses peixes com uma carne lavada e de uma forma igual para todas", informou o pesquisador Nilson Carvalho.

A aplicação de tecnologia para espécies que são boas ao consumo, mas com pouco valor comercial, abre novos mercados e leva o peixe a regiões onde não se costuma consumir pescado. O desafio do Brasil é aproveitar riquezas naturais para ter uma produção competitiva.



Autor: Jornal Nacional
Link: www.globo.com/jornalnacional

 

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