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Produção ameaçada

O litoral brasileiro tem uma grande variedade de peixes, mas as quantidades são cada vez menores. Em 20 anos, a produção de algumas espécies caiu 90%.

04/02/2003

Uma das maiores costas marítimas do mundo. A maior do Atlântico Sul. São 8,5 mil quilômetros de litoral. Do mar, sai o sustento de três milhões de famílias brasileiras.

Álvaro, Laércio, Genivaldo e João saem para uma jornada de sete dias.

"O mais difícil é pensar em voltar sem nada", admite Álvaro.

Garantia de boa pescaria, não há quem tenha.

"O pescador pode ficar oito dias no mar, voltar e ganhar 200 contos. Mas pode também dele voltar e ir atrás do patrão para pedir R$ 20 de vale porque não ganhou nada", diz o pescador José Francisco.

Uns vão, outros estão de volta. Felizes com a pescaria, que rendeu 400 quilos de peixe ou R$ 1,2 mil que vão ser divididos entre os nove pescadores. Pouco mais de R$ 130 para cada um. E alguns dias de sossego com a família.

"Uma semana descansando com a família", comemora um pescador.

Grande parte dos pescadores aqui em Barra de Sirinhaém, litoral sul de Pernambuco, vive da pesca da lagosta, uma espécie encontrada em quantidades cada vez menores no Brasil. Pelo menos 3,5 mil barcos varrem o litoral do país em busca do crustáceo. Segundo a Secretaria Especial de Pesca, um número muito alto, que pode representar o fim das lagostas na nossa costa.

Entre janeiro e abril, período de reprodução, a pesca da lagosta é proibida. José Almir botou o barco lagosteiro no mar, mas para trazer o peixe da mulher e dos filhos. Ele e outros 95 mil pescadores brasileiros contam com o seguro-desemprego na época do defeso: R$ 200.

"Temos o seguro-desemprego e com os peixes que a gente pega, dá para levar", afirma ele.

A pesca do camarão, nesta área, é liberada o ano inteiro. Na rede, vem de tudo um pouco.

A costa brasileira é privilegiada, dizem os especialistas. O clima tropical favorece a diversificação das espécies no mar. No resultado de uma noite de pescaria é difícil contar quantos tipos de peixe há. A variedade é grande. A quantidade, nem tanto.

"A quantidade é bastante inferior em relação a países temperados, como a Noruega, onde a diversidade é pouca, mas a quantidade é bem maior", explica a pesquisador do Ibama, Mario do Carmo Ferrão.

Em um porto, no Recife, os pescadores lamentam. Herbert Lima vive no mar desde menino e nunca viu tempos tão difíceis.

"Não tem mais peixe. Antes a gente pegava 100 quilos e hoje só pega 30", garante ele.

Os especialistas alertam: muitas vezes, os pescadores tiram do mar peixes e crustáceos pequenos demais. E o estoque diminui. Na década de 80, o sul e o sudeste produziam mais de 200 mil toneladas de sardinha por ano. A produção hoje está em 10% disso. "Quando se captura mais do que se deveria a espécie entra em colapso", explica a oceanógrafa Rosângela Lessa.

Uma saída seria aumentar o investimento na pesca em alto mar.

"Para a captura de espécies oceânicas, que é o caso dos atuns e agulhões. Seria opções que dariam maior fôlego à pesca artesanal", diz o professor Paulo Travassos.

Com tantas dificuldades, o pescador que vive na praia ainda que o futuro está no mar.

"Nasce no sangue. A água salgada corre na veia", diz o pescador Francisco Falcão.

Autor: Jornal Nacional
Link: www.globo.com/jornalnacional

 

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