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Valor
do peixe
O Brasil tem uma das maiores costas marítimas do mundo. E
20% da água doce do planeta. Mas não aproveita todo
esse potencial. O repórter Ari Peixoto mostra por que os
brasileiros comem pouco peixe. E os diversos aumentos de preço
que o produto sofre até chegar à mesa do consumidor.
03/02/2003
Uma
vez por semana, a administradora de empresas Angela Alencastro Guimarães
cumpre um ritual. Sai de casa e vai até a peixaria da esquina:
"Tá fresquinho o filé de viola? Queria um quilo
por favor".
Na
volta, orienta a empregada no preparo do alimento que considera
ideal. "É muito mais saudável do que a carne
e o frango, é mais leve e digere melhor", diz.
"Meu
médico falou que tem que comer peixe pelo menos duas vezes
na semana. Peixe é saúde", concorda o feirante.
E
não só o peixe. Moluscos e crustáceos também
estão no topo quando o assunto é alimentação
de boa qualidade. Por uma tabela do IBGE, é possível
comparar os valores nutricionais:
Cem
gramas de camarão, lula, cherne e linguado tem, em média,
87 calorias. Contra 225 calorias na mesma quantidade de carne de
boi, 246 no frango e 276 na carne de porco. A quantidade de proteínas
é quase igual em todos: 18 gramas. Mas é na gordura
a grande diferença. Enquanto o peixe e os frutos do mar têm,
em média, 0,72 gramas de gordura, a carne de boi tem 15,8.
A de frango, 18,7. E a de porco, 22,7 gramas.
Mesmo
com 8.500 quilômetros de costa, o Brasil ocupa o 27º
lugar na lista dos países produtores de pescado. Nossa produção
é de 900 mil toneladas/ano. O Japão, com apenas 2.400
quilômetros de litoral, é um dos líderes do
ranking. Com quase sete milhões de toneladas de peixe.
Se
todo mundo sabe que peixe é saudável, se o Brasil
tem um dos maiores litorais do mundo, como é possível
explicar o baixo consumo do alimento entre a população?
Segundo uma pesquisa feita pelo IBGE nas maiores regiões
metropolitanas do país, os brasileiros comem em média,
por ano, pouco mais de 3kg de peixe.
Já
o consumo de outras carnes é bem superior. Em média,
os brasileiros comem 17kg de frango e 28kg de carne bovina por ano.
Para a nutricionista Márcia Madeira, há duas razões
para a diferença no consumo: "Eu acho que isso tá
ligado primeiro ao preço e, segundo, ao próprio hábito
alimentar".
"Com
certeza tá mais caro do que a carne, o peixe tá mais
caro do que a carne", reclama a cozinheira Marlene Cunha.
A
cadeia de aumentos começa quando os barcos encostam no cais,
ainda de madrugada. Os peixes que chegam, muitas vezes ainda na
rede, são levados para o entreposto. Num deles, em Niterói,
região metropolitana do Rio, são quase 60 toneladas
negociadas antes do sol nascer.
Tudo
acontece no pátio. Os peixes mudam de dono rapidamente. O
dinheiro também.
"Anchova
saiu de R$ 7 a R$ 6 o quilo", diz o pescador Teodoro Mota.
"Comprei
este a R$ 1 e vou vender a R$ 1,50", conta o atacadista.
Do
entreposto para o mercado, do outro lado da rua, o que muda é
o preço. A anchova, vendida pelos pescadores a R$ 6, R$ 7,
é revendida pelos comerciantes por até R$ 9. Aumento
médio de 40%.
Na
feira, o salto é ainda maior. Nas tabuletas, a anchova aparece
a R$ 14. E no restaurante, um prato de peixe em postas pode custar
R$ 37. E a tradicional moqueca chega a R$ 43.
"Estão
exportando tudo que tem de melhor pra fora e no caso a gente tem
que comprar o peixe num preço muito elevado, pagando em dólar.
Ele chega num preço mais elevado para o consumidor",
explica o dono de restaurante, Adalberto da Cunha.
Para
o presidente da Federação de Pescadores do Rio, é
preciso diminuir a distância entre o pescador e o consumidor.
Mas não é só. A federação pretende
entregar ao secretário especial de pesca, José Fritsch,
um documento com reivindicações do setor.
"Peixe
não tem infraestrutura adequada. Faltam cadeias de fio, faltam
terminais de atracagem para abastecimento e desembarque, falta uma
série de coisas que tem que ser revistas. Peixe tem, o que
falta são condições de capturá-lo",
reclama o presidente da federação, José Maria
Pugas.
"O
peixe vem da água, da natureza, não pode ser mais
caro do que a carne. É o mar que dá o peixe",
fala a cozinheira Marlene.
Autor: Jornal Nacional
Link: www.globo.com/jornalnacional
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