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Histórias
de Pescador
KULUENE
32 ANOS DEPOIS
KDU
A
primeira vez que estive no Rio Kuluene foi em 1964, quando eu era
um garoto folgado do Arpoador praticante de caça submarina
, e louco para pescar piranhas de mergulho. Consegui passagem na
FAB até o Parque Nacional do Xingu. Lá conheci Orlando
Villas Boas, o qual ao ver a quantidade de peixe que eu pegava por
dia, me convidou para subir o rio com ele, até o Posto Diauarum
(onça preta) onde apanharíamos seu irmão Claudio
, e depois continuaríamos pelo Rio Xingu até alcançarmos
as cachoeiras Von Martius , quase na fronteira com o estado do Pará.
Minha missão seria abastecer de peixes a expedição
de 12 pessoas que iria tentar os primeiros contatos com índios
de uma tribo misteriosa, a qual somente em 1966 foi finalmente pacificada
. Eram os perigosos índios Kreen-Akrore os quais em 1961
tinham emboscado uma expedição Inglesa, da Royal Geografic
Society , e matado entre outros , o seu líder Richard Mason.
O mais
incrível de tudo, era que a minha alienação
era tão grande, que somente anos depois, foi que dei conta
de todos os perigos que tinha corrido, e principalmente da grande
honra que tivera de participar de uma expedição daquele
calibre, liderado pelos dois maiores indianistas do mundo, indicados
varias vezes para o Prêmio Nobel da Paz.
Mas
secura de pescador é assim mesmo, e ela foi reacendida no
dia 27 de agosto passado, quando recebi via Internet, um convite
do Dr. Márcio Mattos, presidente da AEPIA e Cientista da
USP, para irmos pescar no Rio Culuene , (a nova grafia do antigo
Kuluene). A data de partida estava prevista para o dia 3 de setembro,
o que dava menos de uma semana para organizar minha tralha , conseguir
Habeas Corpus com minha mulher, e principalmente convencer aos meus
dois sócios da "FISHING IN RIO" a me substituírem
em pescarias que tínhamos marcado com nossos clientes naquela
semana.
Até
aí tudo bem. Mas ainda existia outro problema. Apesar de
ha mais de dois meses falar quase diariamente via Internet com o
Márcio, desde que nos conhecemos em uma Home Page nos USA,
nunca havia pescado com ele. Pior, nunca o tinha visto. Que tipo
de pescador ele seria? Que tipo de pessoa ? E o que mais me preocupava,
é que ele era São Paulino, e eu Flamengo. Pelo meus
cálculos poderia até acontecer o Fla jogar com o São
Paulo durante a nossa viagem. O que aconteceria com dois torcedores
doentes, antagonistas na selva amazônica? Por vias das dúvidas
comecei a amolar as minhas facas.
Felizmente
tudo correu maravilhosamente. O Márcio se revelou um excelente
pescador. Na verdade, na categoria de pinchador de rio , muito melhor
do que eu. Meu material de pesca se mostrou totalmente inadequado
ás condições do Kuluene, e não fossem
as aulas que recebi dele, teria voltado solteiro. Não foi
á toa que o Márcio bateu dois recordes mundiais nesta
viagem.
Nosso
outro companheiro, Carlos Marques, geólogo de papo infindável
sobre as suas viagens ao Brasil Central na década de 80,
desbravando o subsolo desta região do Brasil , contando seus
"causos" com relação aos índios da
área do Xingu, tendo inclusive visto o Mapinguari , antiga
superstição indígena personificada por um ser
meio homem, meio bicho, se revelou um pescador de muitos recursos,
batendo inclusive outro recorde mundial.
A VIAGEM
Saímos
dia 3 de setembro as 6,30 horas da manhã de Ribeirão
Preto, SP, e chegamos a Barra dos Garças as 21,14 horas,
987 quilômetros depois. Antes da Barra dos Garças passamos
pelas cidades de Itumbiara, Rio Verde, Montevidiu (Montevidéu?)
Iporá, Piranhas, Nova Xavantina onde passamos sobre o Rio
das Mortes , e Água Boa. Dormimos em Barra dos Garças
e as 5,30 da manhã estávamos tomando café em
um posto de gasolina, logo na saída da cidade, "point"
dos noctívagos locais, ao som de um Heavy Metal/ Funk. Botamos
o pé na estrada, e as 10 horas e 254 quilômetros depois,
chegávamos ao Auto Posto Martinão. Lá deixamos
o asfalto, e ao virar a esquerda em direção a Vila
do Couto, fomos informados de que 150 quilômetros de estrada
de terra nos aguardavam. Nossa Mitsubishi não nos desapontou.
Apesar de ser de terra a estrada estava em excelente conservação,
e assim após passarmos pelas fazendas Soares Camargo, (14
quilômetros após o Posto Martinão), por um bar
a esquerda da estrada (38 quilômetros após as fazendas
Camargo Soares), e pela vila de Serrinha (48 quilômetros depois
do bar), chegamos á encruzilhada de Canarana, 41 quilômetros
depois, exatamente as 13 horas.
É
de suma importância que se tome cuidado com esta encruzilhada
que fica 3 quilômetros antes de Vila do Couto. Como não
existe qualquer placa de informação, corre-se o risco
de virar a direita e ir parar na cidade de Canarana 150 quilômetros
depois. Virando-se a esquerda, passamos logo pelo Rio do Couto,
e chegamos logo em seguida á Vila. De lá, até
o ultimo posto de abastecimento de gasolina (Atlantic) são
16 quilômetros, e de lá ao Rio Culuene 13 quilômetros.
Chegamos ao rio as 14,15. A quilometragem total percorrida desde
Ribeirão Preto tinha sido de 1414 quilômetros. Sem
demora utilizamos uma balsa para atravessa-lo. Com a ajuda do Balseiro
Chico colocamos nosso barco na água, e logo após subimos
o Culuene até sua junção com o riacho Sucurí.
Lá existe um excelente local para camping onde instalamos
nossas barracas.
AS
PESCARIAS
Não
capturamos muitos peixes. A media foi de 8 por dia. Mas demos sorte
e todos eram grandes. Não pegamos uma matrinchã com
menos de 1 quilo . A prova disto é que 6 recordes mundiais
foram batidos. Infelizmente os três primeiros foram depois
ultrapassados pelos 3 subsequentes. Eu dancei nesta.. Até
nas cachorras . Peguei uma de 6 e no seguinte o Marcio faturou uma
outra de 7 quilos . As piranhas foram poucas, somente duas. Liberamos
todos, menos os recordes . Correção, fazíamos
um sashimi por dia. Alias, o ponto alto desta viagem foi a comida.
Exemplos do menu. T. Bones Steaks, com batatas grelhadas, recheadas
com bacon.... Fetucine a Alfredo.... Carne seca na moringa de abóbora
. ....Bife com batatas fritas , feijão e arroz. .... Feijoada
Completa.... Macarrão a Bolonhesa com funghi secchi.....
em todas as refeições saladas verdes feitas com alfaces
hidroponicas. Na hora do almoço, grelhávamos os peixes
e os comíamos com muito molho shoyu e gengibre.
Nosso
acampamento, ficava estrategicamente entre duas cachoeiras impossíveis
de serem transpostas. A 8 quilômetros rio a baixo, éramos
barrados pela cachoeira do Paulista. A 30 quilômetros a jusante
a Cachoeira Grande de Cima era o ponto final de nossas andanças.
Não obstante, muitas vezes éramos obrigados a saltar
do barco para vadear ás corredeiras intermediárias.
Assim
sendo , nossa rotina era sair bem cedo, e navegar até a cachoeira
de cima, e descer o rio de bambúia, utilizando o motorzinho
elétrico para nos manter paralelos as suas margens , pinchando
até chegarmos de volta ao nosso acampamento para almoçar.
Após o almoço, descíamos o rio, até
a cachoeira dos Paulistas. Tínhamos que ter muito cuidado
com o barco, pois entre nosso acampamento e a cachoeira de cima
existiam 8 corredeiras com pedras submersas prontas para quebrar
nossas hélices. Rio abaixo eram somente 4, na minha opinião
as mais perigosas. De acordo com o regulamento da FEMA de Mato Grosso,
evitávamos pescar a menos de 200 metros das cachoeiras. O
problema é como definir o que e´ corredeira, e o que
é cachoeira. Em nossa opinião, quando as pedras deixam
um barco passar, elas fazem parte de uma corredeira. Quando isto
é impossível, estamos diante de uma cachoeira. Resta
saber se os fiscais da FEMA concordam com isso.
Verificamos
que na passagem das corredeiras os peixes atacavam mais as iscas
mais pesadas. Nas águas mais calmas, os pequenos plugs de
superfície, destramente trabalhadas por meus companheiros
, tiveram o maior sucesso. A dura boca das matrinchães nos
obrigava usar anzóis nos spinners e nas colheres. Nos plugs
para não desequilibra-los, usávamos garateias, as
quais nos fizeram perder muitos peixes.
Mesmo
assim foram boas as pescarias. Uma surpresa foi nosso encontro próximo
a Cachoeira de Cima com o Senhor Laurindo Potter fazendeiro local,
o qual junto com sua mulher D. Norma estava embarcado numa chata
de alumínio, pescando com linha de mão. Ao perguntarmos
que tal sua pescaria, o Sr. Potter, do alto de seus 67 anos respondeu
com desdenho.....,Mal, até agora só pegamos nove peixes.
Eram nove horas da manhã, e nós só tínhamos
3. Para disfarçar o embaraço começamos a bater
um papo, no qual o Sr. Potter , nos deu os seguintes conselhos:
A melhor época para pescar no Culuene vai de maio a julho,
mas mesmo assim depende da época da subida dos cardumes.
Isto porque após os cardumes passarem poucos peixes no rio
restarão, pois os cardumes levam as outra espécies
de roldão. Como existe proibição de pesca durante
a piracema, as pescarias tem de ser feitas um pouco antes dela,
pois sempre existem cardumes de peixes que sobem antes da piracema
como um todo. Em novembro quando os peixes descem as pescarias são
fracas por causa da água suja. Não obstante durante
todo o ano, existe abundância de peixes de couro, tais como
pintado, jaú , surubins e palmitos. Lembramos da necessidade
de respeitar as épocas do Defeso.
OS
RECORDES
Nosso
objetivo nesta viagem, como deixamos bem claro em nossa coluna "Curricando
Pelo Mundo " do mês de outubro , era a obtenção
e homologação de 3 recordes mundiais. Para isto fomos
preparados com o manual da IGFA, e com dispositivos que permitissem
o transporte das peças para um local que tivesse balanças
com certificado de aferição com menos de um ano. Lugares
que quase sempre isto existe são as agencias de correio.
O duro é convencer os carteiros a deixar pesar peixes melados
em suas balanças ultra limpas.
Os
três recordes obtidos e que estão sendo encaminhados
para homologação na IGFA, são respectivamente
o do Pacu Prata, ( 1,935 ql.) batido por nosso companheiro Carlos
Marques, e o da Matrinchã (1,865 ql.) , mais o da Cachorra
Facão (1,385 ql.) responsabilidades de Márcio Mattos.
O
Márcio ainda enviou dados para tentar o prêmio da maior
peça do ano, no torneio anual da IGFA, referentes a uma Cachorra
/Payara (Hidrolicus Scomberoides) com aproximadamente 7 quilos.
DICAS
Aconselhamos
a quem for fazer este itinerário, que se abasteça
de cerveja e gelo em Nova Xavantina, caso seu planejamento de viagem
o faça chegar tarde em Barra dos Garças. O empregado
do representante da Kaiser na Av. Mato Grosso , Moacyr Campos nos
atendeu muito bem, fornecendo gelo e latas de cerveja a preços
razoáveis , alem de excelentes pasteis.
Por
favor , levem pelo menos dois hélices de reserva, pois as
corredeiras são mortíferas. É bom saber que
o mecânico de motores de popa mais próximo do local
em que estávamos, morava em Canarana, a 170 quilômetros
de distancia.
Se
vocês não quiserem enfrentar as agruras de um acampamento,
o Sr. Chico, Piloto da Balsa que atravessa os carros pelo Rio Culuene,
dentro em breve disporá de acomodações para
hospedar e alimentar 4 hospedes por preços bem razoáveis.
Alem disso possui e aluga (sem motor) um barco de alumínio
de 15 pés.
A FEMA
e a Policia Florestal de Mato Grosso são bem ativas, mas
ao contrario da propaganda negativa que temos lido a respeito em
varias revistas, todas as vezes que fomos interceptados por elas,
nos trataram com a maior cortesia e respeito. No dia de nossa volta,
ao sermos revistados pelo Sr. João Batista, Agente da FEMA
assim como pelo Cabo Divino da Policia Florestal fomos cumprimentados
por estarmos com todos os documentos em dia, assim como só
estarmos transportando os três recordes. Ao saber que praticávamos
o Catch & Release, o representante da FEMA, comentou: - Parabéns,
è isto aí, os pescadores daqui, tem muito que aprender
com vocês do Sul. E tendo dito isto nos presenteou com um
pequeno livreto contendo a legislação de pesca de
seu estado.
Em
nossa segunda interceptação em Barra dos Garças,
também fomos liberados rapidamente, após termos o
desprazer de ver, um carro ao nosso lado , abarrotado de peixes,
tentando convencer a Policia Florestal que os mesmos tinham sido
comprados, e não pescados. Atenção: Todos os
veículos que passam de Barra dos Garças(MT) para Aragarças
(MS) , são revistados.
EQUIPAMENTOS
UTILIZADOS
Nosso
amigo Carlos utilizou varas Jupiter e Eliminator da Daiwa. Suas
Carretilhas eram uma Abu Garcia 5.500 Royal Express, e uma BW2 da
Daiwa.
Já
o Márcio, optou por uma vara Quantun Tour Editio 12-17, carretilha
Shimano Cronarch 100, com linha Fenwick Niteline de 14 libras ,
chock -leader de monofilamento 0,45 Vantage.
Minhas
varas eram duas Daiwa AG50XX5 1\2 12 - 16 e 2 carretilhas Ambassadeur
5500-C3 com linhas Ande Tournament de 12 libras.
Usamos
vários tipos de iscas artificiais, mas as que fizeram mais
sucesso foram as Foxy da Jerosck Brumar, e os spinners numero 5
da Mepps. Nas corredeiras , as colheres Crocodile, e Tony Accetta
Pet Spoons foram as que sofreram maior numero de ataques. Tentei
todos os tipos de Shads, Peninhas e Spinnerbaits sem sucesso. Minhas
Rapalas matadoras infalíveis de enchovas e bicudas , foram
um fracasso total. Valeu a lição.
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