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PESCARIA DE FUNDO

Antigamente era bem mais fácil... saíamos do ICRJ, navegávamos até umas 20/30 milhas, achávamos os alto fundos de no máximo 60 metros, e bastava baixar as linhas, para que os pargos, os chernes, os namorados, começassem a entrar desesperados em nossas pargueiras.

Pescávamos com linha de mão, monofilamento de 1mm, pargueiras com 5 anzóis simples, chumbadas de meio a um quilo. A marcação dos locais de pesca era fácil de ser feita por triangulação de pontos fixos em terra. Se por acaso não houvesse visibilidade, tínhamos de procurar onde as traineiras comerciais estivessem soltando seus barquinhas de pesca individuais, que chamávamos de "Kamikases".

O apelido vinha do fato desses pobres pescadores passarem o dia inteiro no mar, das 6 as 18 horas em seus pequenos botes, pescando simultaneamente com várias linhas, enquanto a traineira mãe, ficava rondando, recolhendo os peixes, e eventualmente entregando água e comida.

O problema, era que os botes chegavam a ser uns 30 por traineira, e como ficavam bem espaçados, a rota a ser percorrida pela embarcação mãe, ficava bastante extensa, e se o mar virasse, o risco de perder um dos botes, era muito grande.

O resultado era que volta e meia um deles ficava perdido, às vezes por vários dias, e infelizmente, muitos para sempre.

Eu mesmo tive a oportunidade de achar um infeliz que já estava no mar há 4 dias, mais ou menos há a 60 milhas de seu ponto original. O cabo de sua poita tinha partido durante um temporal e o sudoeste tinha-o desgarrado da rota de busca, levando-o para bem longe.

Para minha surpresa, apesar de meio apavorado, estava bem alimentado, e sem nenhum sinal de desidratação. Sua sorte foi ter chovido bastante, e os peixes não faltarem na rota que descaiu.

Agora tudo mudou.

Os últimos Kamikases que vi, foi em janeiro deste ano, e estavam simplesmente a 50 milhas da costa de Cabo Frio. A profundidade beirava 140 metros.

A razão disso é que os peixes, tão abundantes antigamente, deixaram de existir próximo á costa, devido a ação predadora de Camaroeiros, que arrastando suas redes dizimam todo o eco sistema do fundo do mar.

Estatísticas da Fao, mostram que para cada 1 quilo de camarão pescado, cerca de 15 quilos de peixes pequenos, muitas vezes sem o menor valor comercial, são igualmente capturados. É de doer o coração, ver um destes camaroeiros recolher as suas redes. O espetáculo em si é muito lindo, pois quando as redes são erguidas e despejadas no convés, parece uma chuva de prata. Nesta altura, o barco é cercado de milhares de

gaivotas esperando que os camarão sejam separados e o restante dos peixes arremessados de volta ao mar.
O pior, é que não é só isso. Para manter as redes no fundo do mar, os barcos usam uns artefatos chamados ‘portas" de centenas de quilos de peso, unidas por pesadas correntes.

O conjunto ao ser arrastado pelo fundo vai destruindo toda a fauna e flora marítima dos locais por onde passa, ficando literalmente uma terra arrasada.

Hoje em dia , para encontrar bons pesqueiros, tem-se que sair pelo menos umas 50 milhas, e pescar a uma profundidades de mais de 130 metros.

Assim sendo, devido as grandes distancias perde-se a costa de vista, e assim acabam as marcações visuais. Necessita-se então um bom GPS, ou melhor ainda um DGPS, assim como sondas ultra possantes de pelo menos 1 000 watts, caniços curtos de fibracarbono, carretilhas de recuperação ultra rápida , linhas fundidas especiais, que permitam as pargueiras serem levadas ao fundo com um mínimo de chumbadas. Outro problema são os anzóis. Com os de tipos convencionais, mesmo ajudados pela sensibilidade das Spiderwires, demora-se muito tempo para se sentir a ferrada, e consequentemente capturar o peixe. Para corrigir esses problemas, passou-se usar anzóis recurvados auto ferrantes, dificílimos de achar aqui no Rio.

Como os pesqueiros são muito longe, normalmente se leva de duas a três horas para alcança-los. Assim sendo, necessita-se sair as 5 da manhã, em lanchas de pelo menos 32 pés, dupla motorização, para podermos começar a pescar ainda cedo.
A rotina é mais ou menos a seguinte: Ao chegar-se no

pesqueiro, tenta-se identificar as principais pedras da área, e após tornar a remarca-las no GPS, lançar pequenas bóias sobre elas. Existem dois tipos de bóias. As periféricas que são feitas de pequenos balões de borrachas presos á uma linhada com um pequeno chumbo na ponta, e a principal, uma bóia grande de isopor, com um mastro de pelo menos dois metros de altura, tendo na ponta uma bandeira. Esta geralmente somente é lançada, após se verificar que a pescaria naquele local é produtiva o suficiente. A bóia é ligada á uma garatéia feita por ferros de obra de 1/8, encapados por um tubo de PVC, recheado de cimento. A utilidade das bóias, é dar a rota ideal para o caimento da embarcação.

Uma vez isso feito, verifica-se qual a resultante da maré com o vento, para determinar a rota de do barco. Ou seja, por exemplo, se o vento é de sudoeste, e a maré esta indo para leste, dependendo da intensidade das duas forças, a tendência do barco é cair para noroeste. Ao pararmos a lancha, viramos a proa da mesma para noroeste, e deixamos o barco decair para sudeste. Oitenta por cento do sucesso de uma pescaria deste tipo, é saber decair corretamente , e quando atingir o pesqueiro, manter o barco perfeitamente posicionado.

É muito importante que a popa do barco esteja sempre alinhada 180 graus com as trajetórias das linhas lançadas. É fácil imaginar, o que pode acontecer com quatro pessoas pescando ao mesmo tempo, cada uma com mais de 200 metros de linha na água. Se o piloto bobear e o barco atravessar o caimento, as linhas ficarão paralelas ao casco, com o inevitável enrolo resultante.

Resumindo, a regra básica é esta: O barco tem que decair por cima dos pesqueiros, sempre correndo na direção em que as linhas estão filando.

É muito importante que todas as linhas tenham o mesmo diâmetro, e usem o mesmo tipo de anzóis e pargueiras. Isto porque, se afundarem com velocidades diferentes, o risco de embaraçarem-se é muito grande.

Uma vez o fundo alcançado, pode-se usar duas técnicas. Deixar a linha de pé, mal tocando o fundo, ou deitadas sobre o mesmo. A primeira forma é muito eficiente para pegarmos peixes que nadam até uns dois metros do fundo, como os pargos e olho de cão gigantes (vermelhos). A linha encostada no fundo, geralmente é atacada por peixes que somente nadam rente ao solo, como por exemplo, os namorados e as batatas.

Uma vez ferrados os peixes inicia-se a parte mais dura do dia. Botar para cima 200 metros de linha, geralmente com mais de 10 quilos de peixe. Isto sem falar nos prêmios especiais que aparecem de vez em quando, tais como namorados e pargos com mais de 10 quilos. Para facilitar o recolhimento, usam-se cintos especiais para suportar os caniços.

Considerando que o material leva cerca de 3 minutos para chegar ao fundo, a espera dos peixes a serem ferrados, mais uns 10 minutos, e o recolhimento dos mesmos dependendo do peso, entre 15 a 30 minutos , o ciclo de uma descida pode levar entre 28 a 43 minutos. Ou seja, se ficar no pesqueiro 5 horas, o pescador terá soltado e recolhido cerca de 4000 metros de linha. Haja braço!


O autor desta reportagem, é o Capitão Kdu Magalhães, dono da firma Fishing in Rio, baseada no Rio de Janeiro, dedicada a pesca esportiva. Campeão de vários torneios de pesca, é especialista em pesca de peixes de oceano. Veja sua home page http://www.fishing-in-rio.com . Reservas podem ser feitas pelo telefone 021 5391424 ou 021 99783444. A sua lancha é uma Carbrasmar 32 com dupla motorização Mercedes, capacidade de 8 passageiros.

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