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Histórias
de Pescador
Um
Caranguejo no Planalto
Sérgio
Pinho
Neste
final de semana quando saia de casa dei de cara, na rua, com um
caranguejo que caminhava decidido rumo ao Lago Paranoá, fugido
certamente de uma alegre e desfalcada caranguejada do domingo brasiliense.
Vinha assustado, com os olhos saltados da carapaça buscando
algo que lhe parecesse normal mas marchava sem qualquer indecisão
no rumo do lago, como se soubesse, apesar do desconhecido do ambiente,
que aquela direção era a da água indispensável
à umidificação do seu estranho corpo. Peguei-o,
coloquei-o em uma vasilha com água e um pouco de sal grosso
para simular o ambiente dos mangues e estou dando para comer folhas
de hortaliças e comida de cachorro enquanto decido seu destino,
novamente roubado do seu livre arbítrio.
Morador
dos mangues a mais de mil quilômetros de onde rastejava naquele
momento, aquele crustáceo da espécie Ucides cordatus,
que eu sem qualquer remorso tenho comido aos montes quando estou
em Fortaleza e mesmo aqui em Brasília algumas vezes, me pareceu
um ser sem qualquer possibilidade, já que mesmo atingindo
a água não encontraria ali as condições
necessárias à sobrevivência de um caranguejo
uçá, nem outros indivíduos da espécie
que lhe garantiriam a existência das condições
de vida. Não obstante, e com todas as dificuldades que um
clima seco e sem sal lhe impunha, cumpria seu objetivo de seguir
em busca de um destino que ele mesmo escolhesse, e não aquele
eu lhe haviam determinado. Um macho pequeno, sem patas que chamem
a atenção pelo tamanho ou fortaleza, provavelmente
um espécime sem qualquer importância no processo reprodutivo
de sua população. É esse sem dúvida,
o aspecto que chamou a atenção na vida deste ser irracional
de esqueleto externo e carne tenra e saborosa, que tratado sempre
como espécie, mercadoria ou mesmo tira-gosto, salta agora
aos meus olhos de forma decididamente individualizada buscando por
seus próprios meios a consecução de sua meta
de sobrevivência. Esta é claramente a maior lição
que me dá esse filho da natureza: lutar decididamente ainda
que aos olhos dos outros suas chances de sucesso sejam nulas, talvez
até porque nada mais há que ser feito além
disso.
Nessa
bravata está o conceito de destino de todos os seres vivos
diante do desafio da sobrevivência e de usufruto da sua racionalidade,
sem considera-la mais que uma vantagem dos que a possuem sobre os
irracionais. Todos inclusive nos humanos, desde o princípio
da formação da espécie, lutando para contornar
e curar as feridas da vida.
Pensei
nos africanos arrancados de suas vidas e levados como escravos para
terras tão distantes quanto diferentes seriam seus destinos,
como exemplo de drama racional. Que dor não sentiriam? Pensei
no que será desse caranguejo, como drama da irracionalidade,
nas florestas retiradas para a necessária produção
de comida que modifica (definitivamente ?) a paisagem, no animal
preso no zoológico e que não viveu a vida que a natureza
lhe havia destinado. Essa mistura de conceito e direito passa pela
minha cabeça de forma quase natural. Não é
sublime o humano que chora a derrota na busca de emprego ou quase
morre atropelado voltando prá casa cansado, nem é
só comida o caranguejo que fugindo da panela, arranca novamente
rumo a possibilidade da vida. Estão os dois só tentando
refazerem seus destinos, danificados pela sociedade racional, que
com razão reina soberana sobre os vivos e os não vivos
do planeta. Há vezes, no entanto, que o dano é tão
grande, o desvio tão profundo que a tenacidade irracional
ou a força da racionalidade não são suficientes
para recolocar a vida no seu caminho natural. Será o fim?
O caranguejo acredita que não.
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