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ENTREVISTA/05/03/2003
Getulio
de Souza Neiva
(Veterinário/Biólogo Pesqueiro
(Ex-Superintendente da SUDEPE e Ex-Diretor do Departamento de Pesca
e Aqüicultura/IBAMA
PB - O que representa a criação da Secretaria
Nacional de Aqüicultura e Pesca para o desenvolvimento setorial
?
Com
a extinção da Superintendência do Desenvolvimento
da Pesca-SUDEPE, as suas atribuições legais foram
absorvidas pelo IBAMA, que criou em sua estrutura um Departamento
de Pesca e Aqüicultura para atendê-las. A partir desse
instante observou-se uma progressiva estagnação do
desenvolvimento do setor que durou cerca de dez anos. Essa situação
só começou a ser revertida com a criação
do Departamento de Pesca e Aqüicultura, no Ministério
da Agricultura que, entre outras atribuições, assumiu
a de promover o desenvolvimento sustentado do setor através
da implementação de um Programa Nacional de Desenvolvimento
dentro do enfoque de cadeias produtivas. Tal situação
já era esperada, vez que o IBAMA passou a priorizar as ações
restritivas em favor da preservação dos recursos naturais
em detrimento das ações desenvolvimentistas ainda
que sustentadas. Era o início da política do "não
pode" (preservacionista) em detrimento da política mais
racional do "como pode" (conservacionista). A agravar
tal situação quase toda a estrutura nacional,material
e de pessoal especializado por anos, vinculados à SUDEPE
e ao seu Programa de Desenvolvimento Pesqueiro-PDP/FAO, foram destinadas
para outros fins e disseminadas com outras atribuições.
Extinta a SUDEPE e constatada a impossibilidade de se promover o
desenvolvimento do setor no âmbito do IBAMA, começou
a luta para a criação de uma Secretaria de Pesca e
Aqüicultura no Ministério da Agricultura ou no Ministério
da Indústria e Comércio. Esses esforços culminaram
com a criação, dez anos após, do Departamento
de Pesca e Aqüicultura, na Secretaria de Apoio Rural e Cooperativismo
que, recebendo de volta inúmeras e importantes atribuições,
nada recebeu em termos de infra-estrutura e pessoal, passando a
operar com alguns poucos funcionários especializados disponibilizados,
com relutância, pelo IBAMA. Em termos nacionais, foi necessário
treinar alguns funcionários das Delegacias Regionais do Ministério
da Agricultura para a execução das atribuições
a nível estadual.
Com a mudança de Governo, o setor foi agradavelmente surpreendido
com a criação imediata de uma nova Secretaria de Aqüicultura
e Pesca, através da MP 103, de 1º de janeiro de 2003,
vinculada à Casa Civil da Presidência da República.
Infelizmente, esta vinculação à Casa Civil,
representou "um tiro no pé", pondo por água
abaixo todo o esforço de reorganizar o setor oficial, em
nível nacional, no Ministério da Agricultura. No momento,
queremos crer, que as atribuições de concessão
de licenças para a pesca, aqüicultura, registro geral
da pesca, etc. devem estar desativadas... Como essa Secretaria vai
funcionar sem estrutura nos Estados e sem pessoal habilitado? Pretende-se
devolver para essa Secretaria todo o acervo estrutural e de pessoal,
a nível nacional, passados para o IBAMA com a extinção
da SUDEPE? Não cremos seja factível. Assim, melhor
seria deixar a nova Secretaria vinculada ao Ministério da
Agricultura e nela realocar, em nível nacional, parte dos
técnicos e demais funcionários especializados transferidos
da SUDEPE para o IBAMA.
A nova Secretaria, no Ministério da Agricultura, melhor poderia
interagir com a EMBRAPA, excepcional empresa de pesquisa agropecuária,
para a promoção sustentada do desenvolvimento do setor,
notadamente da aqüicultura.
Reestruturada a nova Secretaria de Aqüicultura e Pesca, com
as suas atribuições bem definidas para evitar sobreposições
de autoridade com outros órgãos, notadamente o IBAMA,
seria necessário não uma "nova política
pesqueira" mas, sim, a adequação da política
existente ás diretrizes do atual Governo, contemplando seus
objetivos de alcance econômico, social, tecnológico
e ecológico. Neste particular, haveria que se dar ênfase,
por exemplo, ao desenvolvimento sustentado com enfoque para o atendimento
das demandas do consumidor brasileiro, em especial o de baixa renda
e à exportação de pescado de alto preço.Assumiria,
também, aspecto relevante a implementação de
políticas de geração de empregos, em especial
para pequenas e médias empresas na área de aqüicultura
e para grandes empresas na área de pesca oceânica de
altura e em águas internacionais, bem como de crédito
com que tem sido muito pouco contemplado o setor.
Não se poderia perder de vista, outrossim, o que representa
em termos de assentamento de pessoal sem terra, a concessão
de pequenas áreas em represas hidroelétricas e litorâneas
(patrimônio nacional), para a criação de peixes
em tanques redes, camarões em áreas salinizadas e
peixes e mariscos em águas litorâneas. Um hectare utilizado
em aqüicultura seria mais produtivo do que cinqüenta hectares
na agricultura de subsistência ou familiar.
Espera-se que o novo Código de Pesca, em tramitação
no Congresso Nacional, seja aprovado sem emendas que possam desfigurá-los.
O bom funcionamento da Secretaria de Aqüicultura e Pesca é,
pois, de fundamental importância à implementação
do setor em bases sólidas, capaz de torná-lo cada
vez mais em importante fonte de geração de riqueza,
trabalho, alimento e bem estar para o País e seu Povo.
PB
- Faça um comparativo entre a aqüicultura que está
se desenvolvendo bastante e a pesca marítima, dentro das
prioridades para a nova política pesqueira.
A
pesca extrativa mundial parece estar atingindo o seu nível
máximo de produção sustentada e já está
cedendo lugar para a produção aqüicola.
No Brasil, ainda há espaço para o crescimento da produção
extrativa, notadamente de espécies não convencionais.
Relativamente à pesca marítima, ela poderá
ainda contribuir para o aumento da produção , substancialmente,
pela explotação de peixes pelágicos de pequeno
porte como a anchovinha (anchoita Argentina), engraulídeo
abundante em nosso litoral e de baixo preço que, se capturado
convenientemente, poderia se constituir em alimento protéico
por excelência para atender o problema da fome , quer "in
natura" ou congelado nas zonas urbanas ou industrializado nas
zonas rurais. Não se olvidando da possibilidade de reduzi-lo
a farinha de peixe para suplementar a alimentação
de crianças subnutridas, antigo sonho do saudoso Almirante
Paulo Moreira da Silva. Este peixe não foi explorado até
hoje porque não é comercialmente lucrativo. Se o Governo
estabelecer preço lucrativo para compra, sob condições
adequadas para comercialização, cremos que o setor
o pescará. Falta comprador.
Pesquisas (PDP/FAO/SUDEPE; Instituto Oceanográfico/USP; FURGS)
informam sobre a abundância dessa espécie em nosso
litoral. Estima-se que se poderia usufruir, anualmente, em torno
de 500.000mil toneladas dessa espécie e outras acompanhantes.
A pesca de espécies migradoras, como atuns e afins, lulas,
etc. bem como espécies ocorrentes em altas profundidades,
ainda pouco conhecidas, poderiam, também contribuir para
o aumento da produção e da nossa exportação.A
pesca dessas espécies teve grande impulso nos últimos
anos graças ás ações do DPA/Minist.
Agricultura e a política de arrendamento de embarcações
estrangeiras para a pesca. São espécies altamente
migradoras cujo controle é realizado por comissões
internacionais da qual o Brasil faz parte. O Brasil conseguiu aumentar
substancialmente as suas cotas de capturas permitidas pelas convenções
internacionais.
Não se deve excluir a possibilidade, desde que o Brasil venha
a possuir frota oceânica de grande porte e pessoal capacitado
em escolas pesca, de operarmos em águas internacionais, como
a Antártida, por exemplo, e na Zona Econômica Exclusiva
de outros países, notadamente os africanos de língua
portuguesa, pelo sistema de "joint-venture".
Em águas continentais, somos de parecer que a produção
extrativa poderia ser implementada nas Bacias do Paraguai e Pantanal,
cujas águas são incomparavelmente mais ricas que as
da bacia amazônica. Para tanto seria necessário que
o ordenamento pesqueiro daquela área fosse feito com racionalidade
e fundamento científico o que, a nosso entender, não
vem acontecendo. Alí, a política do "não
pode" impera.
Acreditamos serem perfeitamente compatíveis a coexistência
da pesca esportiva e de lazer com a pesca profissional comercial.
Para tanto, seria necessário se encarar decisões que,
a princípio, parecerão "prejudiciais" à
sustentabilidade dos estoques naturais, dentre as quais, destacamos:
- redução da população de jacarés,
elo superior da cadeia alimentar local, predador oportunista principalmente
de pescado. Estima-se que a população de jacarés
no pantanal esteja em torno de 35milhões de indivíduos.
Calcule-se quanto por ano esta população consome de
peixes. A utilização dessa espécie como alimento
e produtos industrializados, além de contribuir para geração
de riqueza e trabalho na região, traria grande redução
à mortalidade natural de peixes que sobrariam para a pesca
comercial e amadora. Não se deve esquecer que as aves são
também grandes consumidoras de peixes. Com a redução
dos jacarés elas aumentariam suas populações,
o que é bom para o turismo, e contribuiriam com seus adubos
para a melhoria da produtividade das águas. Estima-se que
uma ave consome, no mínimo, o seu peso por dia. Isso dá
uma idéia da riqueza piscícola do Pantanal.
Permitir
a pesca por pescadores profissionais, devidamente registrados e
monitorados, com redes adequadas, principalmente com redes de malhas
pequenas que impeçam o emalhe dos peixes, para captura de
peixes da cadeia alimentar baixa, principalmente os que se alimentam
de plâncton. Isso porque a pesca atualmente admitida é
com linha e anzóis, permitindo, principalmente, a captura
de peixes carnívoros e frugívoros, que são
os de maior valor comercial ou para a pesca amadora e que estão
situados em níveis mais alto na cadeia alimentar. Os peixes
carnívoros têm como alimento principal os peixes menores
e os comedores de plâncton que, em geral, formam cardumes
abundantes. Esses peixes plactófagos, que não sofrem
a ação da pesca comercial, são cada vez mais
abundantes no ambiente, enquanto os carnívoros, que sofrem
mortalidade por pesca, tornam-se cada vez mais reduzidos. Ocorre
que, se os peixes planctófagos são comidos pelos carnívoros
os ovos e larvas dos carnívoros, como parte do plâncton,
passam a se constituir em alimento natural dos peixes planctófagos,
cada vez mais abundantes, vez que suas populações,
estando protegidas da pesca, tendem a aumentar. Assim, a proteção
indiscriminada de peixes planctófagos, impedindo que sejam
pescados (mortalidade por pesca) tende a fazer aumentar em demasia
suas populações que, por sua vez, aumentam a mortalidade
das fases mais jovens dos peixes carnívoros.Resultado: redução
das populações dos peixes predadores e frugívoros,
fato constatados pelos pescadores amadores e locais. Desta vez não
se pode culpar os pescadores artesanais, vez que eles estão
proibidos de pescar com redes. A culpa é do ordenamento mal
dirigido que afeta o equilíbrio presa x predador. A continuar
esta situação logo teremos alguns peixes do pantanal
incluídos na lista de "em extinção".
A quebra desse desequilíbrio antrópico/oficial permitiria,
sob controle, além de se obter produções expressivas
de pescado para consumo humano e a reconstituição
do equilíbrio natural na cadeia alimentar, a reabilitação
da profissão de pescador artesanal, ora em extinção.
Se a Bacia Amazônica produz (FAO/PNUD) cerca de 350,0 mil
toneladas/ano de pescado, o Rio Paraguai/Pantanal poderia produzir
mais.
No
que concerne à aqüicultura, tem o Brasil todas as condições
de se tornar o maior produtor mundial, sem qualquer ufanismo da
nossa parte. Atualmente, o maior produtor mundial em aqüicultura
é a China, com cerca de não menos que 30 milhões
de toneladas/ano.Ocorre que as áreas propícias para
a atividade naquele país já escasseiam enquanto no
Brasil nós estamos apenas começando a explorá-las.
As enormes extensões das áreas alagadas das represas
hidroelétricas já começam a ser utilizadas
graças a regulamentação recente da lei para
concessões de áreas para cultivadores. Essas áreas
poderiam abrigar milhares de sem terra, com lucratividade certa.
As áreas litorâneas já começam a ser
usadas no cultivo de ostras, mexilhões e vieiras. Precisa-se
incentivar o cultivo de peixes em tanques rede. O cultivo de camarões
marinhos, principalmente, no Nordeste, já é uma realidade
que tem carreado muitas divisas para o País. O cultivo de
camarões marinhos no Brasil, implementado pela SUDEPE com
apoio financeiro do BID na década de 80, foi uma semente
que se desenvolveu plenamente e, se for racionalizada a "política
do não pode" pelos órgãos ambientais,
poderemos nos tornar no maior produtor mundial, com exportações
superiores a 1,0 bilhão de dolares/ano.
O Brasil deixou de ter um déficit comercial na balança
de pescado, da ordem de 300,0 milhões de dólares,
alcançando um superávit de US$132,0 milhões
em 2002. Exportamos US$334,4 milhões e importamos US$202,0
milhões (Sec.Aquic.e Pesca). Segundo a mesma fonte, em 1997
produzimos 3,6 mil toneladas de camarões cultivado e em 2002,
alcançamos 37,7 mil toneladas (US$ 155,0 milhões).
PB
- Outras considerações?
É
urgente envidar esforços para se reduzir a burocracia e as
exigências irracionais que obstaculizam o desenvolvimento
da aqüicultura, principalmente quanto as ambientais e as que
oneram o produtor com taxas e impostos excessivos, para não
matar a galinha dos ovos de ouro no seu nascedouro.
É inadiável se implementar os cursos de formação
de pessoal de nível médio para a pesca e aqüicultura,
cujos programas já foram elaborados pelo biólogo Aldemir
de Castro Barros em colaboração com o CEFET/Pe, a
pedido do DPA/M.Agricultura. No ano 2000, os programas foram avalizados
pelo Ministério da Educação e Cultura e, ao
que se sabe, espera-se a implantação do 1º curso
na Baixada Santista, ainda em 2003.
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