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DESFRUTE MÁXIMO

Sérgio Pinho – Eng. de pesca

     

         Com temperaturas médias elevadas, uma frota obsoleta, sem mão de obra qualificada e sem infra-estrutura adequada para a conservação não se poderia esperar que o desempenho do setor pesqueiro brasileiro fosse melhor do que é. As constantes afirmações de que o peixe no Brasil é caro apesar da grande extensão da nossa costa e da quantidade de água doce corrente ou parada que possuímos são respondidas com as mais variadas observações, todas elas corretas ou pelo menos com elementos consistentes para explicar em parte por que o pescado não representa, como poderia, um percentual maior na alimentação nacional.

     O que pretendemos aqui é listar os principais problemas, buscar conexões entre eles e verificar se podemos estabelecer um paradigma que possibilite o desenvolvimento ordenado do setor a partir da captura/criação até o consumo final/aceitação do pescado como fonte base de proteína.

         Os problemas identificados, sem qualquer hierarquia, podem ser causa ou conseqüência entre si e a questão passa pelo conhecimento do potencial pesqueiro de que dispomos e a forma como desfrutados desse recurso. Assim, é sabido que possuímos grande quantidade de espécies com baixos volumes por cardume, situação que dificulta a captura seletiva pela alta percentagem de fauna acompanhante e impõe em muitos casos o descarte de grandes quantidades de pescado capturado; temos uma frota obsoleta que impede maior eficiência, seletividade e capacidade de conservação do produto capturado, além de elevar de forma descabida o custo de captura; nossas frotas, inadequadas para as condições de captura de várias espécies ao mesmo tempo, são antieconômicas por permanecerem paradas e se deteriorado durante os defesos de suas espécies licenciadas; nossos barcos apresentam ausência de meios eficientes de conservação a bordo, dadas as condições regionais; falta aos nossos barcos, mão de obra qualificada para o exercício da pesca, da conservação do pescado e do manejo adequado da embarcação durante a faina de pesca, já que sem formação adequada, essa deficiência obriga o retorno à terra e o conseqüente abandono da pescaria por qualquer causa técnica, dada a inexistência de cursos de formação profissional para o setor; a grande maioria dos nossos produtores de pescado sofre de crônico desconhecimento do mercado; a precariedade da infra estrutura de apoio a frota e comercialização de pescado não permite uma racionalização coletiva dos custos de manutenção ou a troca de experiências sobre novas técnicas e equipamentos; por não possuírem boas condições de conservação a bordo, a distância maior dos pesqueiros a que se obrigam atualmente, compromete a qualidade do pescado pelo tempo maior em barcos despreparados; a intensificação da disputa por áreas tradicionais de pesca pelo aumento da população pesqueira sem que se descubram novos pesqueiros e novas espécies capturáveis com a mesma velocidade com que aumenta o número de barcos e pescadores e; a redução das capturas totais de espécies tradicionais e da captura per cápita no contingente envolvido com a pesca;

        As conseqüências do somatório dessas ineficiências podem ser, dentre outras, a baixa qualidade sanitária do pescado oferecido ao mercado, o que é regra geral não só no mercado interno como para o produto de exportação, haja vista que nossos produtos valem menos no mercado internacional que seus concorrentes e que boa parte da população nacional não “confia” no pescado oferecido pelo mercado varejista; o preço elevado para o consumidor final brasileiro; a necessidade de importação para suprir nichos de mercado específicos que exigem qualidade ou necessitam regularidade no suprimento e; o comprometimento da conservação dos estoques pela necessidade de capturas cada vez maiores para suprir o mercado e as necessidades de custo das empresas e pescadores;

       Nosso entendimento é que a solução dessas questões pode ser tentada a partir da aceitação de um objetivo genérico que chamamos de desfrute máximo da captura ou desfrute máximo da produção.

      O Desfrute Máximo está relacionado primordialmente com a qualidade final do produto a ser oferecido ao mercado, e comprometido com a retirada do máximo lucro sobre qualquer pescado capturado pela eliminação de descartes, perdas, descabeçamentos ou eviscerações desnecessárias e processamentos inadequados. Aproveitar totalmente o que se retira do meio ambiente é um ato de respeito à Natureza. É com essa filosofia que se deve explorar recursos naturais.

       Tratamos de um conjunto de ações de planejamento, apoio oficial e controle das pescarias que seriam dirigidas para a busca de melhores aproveitamentos para o produto da pesca, a redução sistemática e permanente das perdas por descarte ou putrefação ao longo de toda a cadeia com a perseguição de objetivos específicos para cada pescaria, região ou conjunto de pescadores tias como:

·        Adequação de frotas para o aproveitamento de todas as capturas – eliminação dos descartes;

·        Modernização das frotas para maior eficiência nas capturas e melhor conservação do produto a bordo – redução dos gastos com insumos e redução das perdas por descarte e putrefação;

·        Treinamento da mão de obra existente de forma emergencial através de cursos relâmpagos e formulação de programas permanentes de formação e mão de obra com especificidades por região, por pescaria e por nível de treinandos;

·        Retomada de ações específicas de Estado tais como estatística e pesquisa com vistas a suprir de informações o setor privado;

·        Modernização da infra estrutura de distribuição de pescado;

·        Aplicação no desenvolvimento de novos produtos

          A parte isso, todo o esforço a ser desenvolvido para a formação de uma frota oceânica, que deve ser tratada de forma diferenciada dos projetos da pesca costeira, já devem incluir em seu desenvolvimento básico os conceitos aqui defendidos como forma de implementar novas pescarias efetivamente rentáveis e ambientalmente sustentáveis.

            As conseqüências de curto prazo esperadas seriam o aumento do PIB pesqueiro, acréscimo na renda per cápita do setor, redução dos custos de produção por unidade, maior valor agregado ao produto, maior ganho para a cadeia produtiva com redução de preços relativos para  consumidor e menor pressão sobre os estoques.

            As conseqüências de médio prazo seriam o aumento da produção consumida sem o aumento das capturas, maior ganho para os produtores e massificação do consumo de pescado pela oferta constante e pela segurança de qualidade e procedência dos produtos ofertados.

          No longo prazo espera-se a recuperação dos estoques costeiros, maior controle sobre os estoques e maior racionalidade na produção.

         O aumento da produção viria sobretudo das novas áreas de pesca oceânica, do aproveitamento de espécies hoje descartadas e da aqüicultura sem no entanto ser o objetivo primordial que tem levado à explotação incompetente dos recursos e à queda na qualidade sócio-econômica dos atores pesqueiros.

      O desfrute máximo, em outra linha de abordagem exploratória, garantiria maiores ganhos aos produtores relegando a um plano secundário a busca paranóica e a qualquer preço do aumento puro e simples do volume produzido.

     A consecução desses objetivos demanda um grupo de programas a serem coordenados pela Autoridade pesqueira com a participação de diversas estruturas públicas e privadas como Ministério da Educação, na formação profissional, Embrapa na pesquisa, Sebrae no treinamento e inovações tecnológicas, Min. da Agricultura no controle de qualidade, Min. do Comércio Exterior buscando novos mercados e promovendo feiras internacionais, bancos públicos na avaliação e assistência financeira, sindicatos e associações na motivação e organização de produtores. Todos os programas devem ter um único foco: melhoria do produto nacional como base do enriquecimento do setor.

  O resultado previsível será um setor pesqueiro forte e sustentável, com um conjunto social formado por indivíduos especializados e uma comunidade voltada profissionalmente para a atividade, fator cultural da conservação adequada dos recursos e a perseguida perpetuação da atividade para o bem dos grupos sociais que dela vivem, que dela fazem uso e que dela desfrutam.

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