|
Artigos
ARRENDAMENTO
DE BARCOS &
ABSORÇÃO DE TECNOLOGIA
Sérgio Pinho
BSB, 5/11/96
------------------------------------------------------------
Temos participado há muito tempo da discussão que
envolve o desenvolvimento da pesca no Brasil, buscando demonstrar,
conforme nossa convicção, que nosso pais pode se tornar
um grande produtor mundial de pescado. Muito tenho ouvido sobre
pobreza dos nossos mares, salinidades e temperaturas que não
proporcionam a existência de grandes cardumes e até
mesmo ausência de estoques que aconselhem uma exploração
intensiva.
Na verdade, a exploração de um recurso natural como
o pescado, de forma responsável e sustentável, permite
a criação de uma produção do tamanho
do estoque disponível para a captura. Assim é um setor
pesqueiro dinâmico, produtivo, gerador de empregos e renda
e produtor de alimentos. Para se alcançar este patamar não
se faz necessário termos os imensos cardumes que permitem
ao Peru e ao Chile serem os grandes produtores que são, ou
o bacalhau da Noruega, ou o que seja. Precisamos tão somente
explorarmos com eficiência todo o nosso potencial, entendido
ai o termo eficiência no seu sentido absoluto de máximo,
possível e melhor. Máximo de quantidade, possível
de sustentável, racional, responsável e melhor de
aproveitamento, excelência. A chave deste portão do
Éden não é fiscalização, multa,
prisão, nada disso. É tecnologia. Esta palavra mágica
permite o aproveitamento maximizado do recurso, sem os desperdícios
que obrigam a produzir mais que o necessário para cobrir
os custos. Permite explorar espécies e áreas impossíveis
de serem aproveitadas num passado recente. Permite aumentar o desfrute,
ou seja, aumentar a produção sem aumentar a captura.
Tão mágica é a tecnologia, que nos permite
também absorvê-la, aprendê-la, copia-la, sem
grandes dificuldades como já o fizemos em outras oportunidades.
Para isso é bastante que estejamos dispostos a fazê-lo.
Falando mais claramente, é impossível explorarmos
os estoques atuneiros que passam pela nossa costa com o nível
de conhecimento que temos hoje e com as técnicas que empregamos
em nossos barcos. Não poderemos jamais desfrutar convenientemente
dos estoques de xixarro, manjuba, castanha e outras espécies
pelágicas, se não temos qualquer conhecimento de técnicas
de pesca como o arraste de meia água. Vários bancos
de peixe-sapo ou tamboril (o peixe da moda na Europa) foram descobertos
e estão sendo explorados até certos limites. Dai em
diante não sabemos mais como fazer e por isso pomos em risco
a sustentabilidade do recurso. Um pouco de inteligência nos
dirá que a solução seria buscarmos maneiras
de melhorar a exploração, e não limitar as
capturas ou outras atitudes bem conhecidas e pouco eficientes. Para
estes problemas, que tem sido insolúveis no nosso setor pesqueiro,
e para outro ainda maior que é a falta de financiamentos
e linhas de credito específicas para a pesca, temos de há
muito defendido os arrendamentos para a exploração
de determinadas espécies com tecnologias que não dominamos.
Contra esta posição temos ouvido muito poucos argumentos.
Todos eles sem qualquer fundamento. Tão fracos que não
tem formuladores assumidos. São sempre lançados como
se tirados de conclaves ou embasados numa suposta preocupação
com a defesa dos estoques ou dos pescadores brasileiros. Temer por
exemplo, que um barco arrendado venha a concorrer com os nacionais
em seus bancos de pesca é absolutamente infundado já
que as permissões, quando concedidas, limitam as operações
às áreas com profundidades superiores a 100 metros.
Outro argumento apócrifo que temos ouvido, diz respeito a
proteção dos recursos. Impede-se empresas nacionais
de arrendarem os barcos que freqüentam permanentemente nossa
costa e desembarcam o pescado em outro pais. Qualquer tripulante
nacional pode testemunhar a existência de piratas em nossa
costa. A quem interessa este estado de coisa, sinceramente não
sabemos, o fato é que, embora existindo norma específica
(Dec. 68.459 de 01/04/71) para a autorização de arrendamento
de embarcações de pesca estrangeiras por empresas
brasileiras, estas só tem acontecido por parte do IBAMA em
casos esporádicos e com limitações que não
constam de qualquer norma. NO SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE
PESCA, realizado pela FUNDAÇÃO DE PESCA DO RIO DE
JANEIRO- FIPERJ, em agosto de 96 representantes do CEPSUL-IBAMA
informaram que havia naquele Instituto uma postura de não
autorizar arrendamentos de barcos atuneiros de grande porte, fossem
eles cerqueiros ou espinheleiros, e não autorizar de forma
nenhuma os boniteiros ou canheiros que utilizam isca viva. Naquele
momento não foi apresentada a justificativa para tal postura.
Também não foi dito o que seriam barcos de médio
e grande porte. Sabe-se também que não se tem conseguido
autorização para arrendamento de arrasteiros, sejam
eles de grandes profundidades ou de meia água. Esta posição
já foi defendida no passado por estaleiros que viam ai uma
perigosa concorrência num mercado cativo. Alguns armadores,
mestres e mesmo pescadores ainda hoje, embasados em informações
falsas ou falseadas, tem emitido opiniões contrárias
a esta prática. No primeiro caso, os estaleiros vêem
hoje que perderam a possibilidade de já estarem construindo
aqui estes barcos, se as técnicas de pesca já tivessem
sido inteiramente absorvidas, como aconteceu no caso da frota de
camarão do Norte do pais. No caso dos pequenos armadores,
o medo vem da falsa idéia de que eles não poderiam
também arrendar barcos para absorverem novas técnicas
de pesca e conservação. Os pescadores que temiam perderem
empregos para seus colegas estrangeiros, melhor formados, tem no
Sindicato dos Pescadores de Rio Grande - RS, o exemplo da defesa
dos arrendamentos, já que ali ao contrário do que
ocorreu na pesca de todo o Brasil, foram criados empregos formais
e de excelente qualidade, inclusive com formação de
mão de obra nacional que hoje opera barcos, antes estrangeiros
e agora brasileiros.
Para
a questão do aprendizado pesqueiro por parte das empresas
brasileiras, portanto, não vemos solução que
não seja pela associação com quem detenha este
conhecimento, e a maneira mais simples e o arrendamento, até
porque não há dinheiro disponível no Brasil
para a construção de Barcos modernos. E se houvesse?
Quem os manejaria? Também não temos mão de
obra especializada. Precisamos treina-la, e isso é possível
fazer nos barcos arrendados. Ao cabo de alguns anos teríamos
conhecimento da pesca e gente trinada para exercê-la.
Na
verdade, é preciso que o setor pesqueiro privado se informe
e discuta a questão do arrendamento para se posicionar de
forma consistente em relação ao tema, tendo em mente
que os recursos pesqueiros são explorados pelo setor em nome
de toda a sociedade e é sua função, antes mesmo
que do Governo, traçar os caminhos a seguir.
voltar
home
|