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AQUICULTURA:
UMA ALTERNATIVA PARA O DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE(1)
Itamar de Paiva Rocha (2)
Eng. Pesca- CREA- 7226 - D
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As alternativas de investimentos produtivos capazes de acelerar
o crescimento econômico no Nordeste, se apresentam dentro
de um marco acentuadamente restrito. As limitações
de recursos naturais que prevalecem na Região, contribuem
de forma preponderante para mante-la em um estagio de inferioridade
em termos de vantagens comparativas, cuja superação
depende basicamente da identificação, promoção
e uso eficiente das poucas opções que, do ponto de
vista de geração de riqueza e emprego, possam oferecer
atrativos para investimentos do setor privado com verdadeiro impacto
regional.
Dentre as limitadas oportunidades empresariais que oferece a Região,
cabe destacar as excepcionais condições ecológicas
de sua costa tropical e de certos vales interioranos para o cultivo
de camarões e peixes em cativeiro, atividade produtiva que
nos últimos tempos vem mostrando extraordinário crescimento
em alguns países do terceiro mundo como a China, Equador,
Filipinas e Índia, bem como no Japão, Estados Unidos
e Formosa. Com efeito, a aquicultura como atividade produtiva adquiriu
caráter técnico/empresarial moderno nos últimos
anos da década de 1970, e registrou durante os anos 80, considerável
aperfeiçoamento e adaptação das correspondentes
tecnologia nos mencionados países, com reflexos altamente
positivos para a melhoria da socio-economia das suas regiões
de intervenções.
Atualmente,
a produção proveniente da aquicultura em nível
mundial já corresponde a mais de 20 milhões de toneladas/ano,
o que representa uma receita na ordem de US$ 36 bilhões de
dólares a nível de produtores e, sua importância
para a socio-economia desses países, pode ser melhor ilustrada
pêlos seguintes exemplos:
1 -
A China - Como maior produtor mundial, atingiu o patamar de 13,3
milhões de toneladas de produtos derivados da aquicultura
em 1993, gerando uma receita a nível de produtor, de aproximadamente
US$ 13 bilhões de dólares, cabendo destacar a geração
de cerca de 6 milhões de empregos diretos, envolvidos com
a produção de 6,8 milhões de toneladas provenientes
da exploração de 585.000 hectares de áreas
estuarinas e regiões costeiras e 6,5 milhões de toneladas
oriundos da piscicultura de águas interiores, através
da exploração de 4,16 milhões de hectares.
2 -
A Tailândia - Como maior produtor mundial de camarão
cultivado, cuja produção de 225.000 ton em 1994, contribuiu
para a geração de 200.000 empregos diretos, com um
faturamento de US$ 2 bilhões de dólares. A carcinicultura
marinha da Tailândia, explora atualmente uma área de
80.000 hectares e foi o setor individual que mais captou divisas
em 1994, tendo implantado inclusive a forte industria do turismo
naquele pais.
3 -
O Equador - O maior produtor Latino-Americano de camarão
cultivado, com exploração de 100.000 hectares de viveiros,
cuja produção em 1994 foi de 100.000 toneladas, contribuindo
para a captação de cerca de US$ 500 milhões
de dólares em divisas para o Pais. A denominada ''indústria
camaroneira"do Equador contribuiu com 160.000 empregos diretos,
em sua grande maioria absorvidos pela mão-de-obra não
especializada.
4 -
A Noruega - O maior produtor mundial de salmão cultivado
em gaiolas/tanques redes, cuja produção de 200.000
ton em 1994, contribuiu para a captação de US$ 1 bilhão
de dólares em divisas. A experiência acumulada nos
países onde a aquicultura comercial vem mostrando crescimento
acelerado, revela três aspectos que pôr sua importância
merecem destaque:
O aspecto
econômico, no sentido de que a exploração de
peixes e camarões pode ser conduzida com bom nível
de eficiência de emprego de capital, tanto pôr pequenos
como pôr médios e grandes produtores;
O aspecto
social, através do emprego maciço dos próprios
pescadores artesanais, que apresentam atualmente, alto índice
de marginalização, em razão da diminuição,
via poluição e predação, dos estoques
naturais;
O aspecto
ecológico, diretamente relacionado com a preservação
do meio ambiente, já que esta atividade necessita de condições
hidrobiologicas favoráveis, sendo portanto, compatível
com qualquer programa de preservação ambiental.
Com
o sensível declínio da produção de pescados,
a atividade de piscicultura vem recebendo uma atenção
toda especial pôr parte dos organismos internacionais ligados
a produção de alimentos e pelos países detentores
de potencial natural para sua exploração. tendo como
resultado, uma participação de 50% na produção
mundial de aquicultura, representando um faturamento anual de cerca
de US$ 19 bilhões de dólares e contribuindo para a
geração de 6 milhões de empregos diretos.
A região
Nordeste do Brasil, apresenta excepcionais condições
climáticas, hidrobiologicas e de infra-estrutura para a exploração
dessa atividade, que vem demonstrando a nível mundial, ser
uma excelente opção para a produção
de alimentos ricos em proteínas, para a geração
de empregos produtivos e, especialmente para a criação
de uma nova base de sustentação econômica no
meio rural.
Também
pôr sua importância, particularmente para as condições
do Nordeste, cabe destacar adicionalmente, a capacidade de integração
da piscicultura com os demais elementos produtivos do meio rural,
em especial com os projetos de agricultura irrigada, em que a água,
enriquecida de nutrientes e de materia orgânica decorrente
da produção biologica nos viveiros, pode e deve ser
utilizada na irrigação, racionalizando os meios de
produção, com reflexos diretos na melhoria dos índices
de rentabilidade final dos diversos segmentos produtivos das propriedades
rurais. O potencial da Região para a produção
de peixes através da piscicultura e tão expressivo,
que e possível afirmar categoricamente que o Nordeste poderá
se transformar no maior centro de produção mundial
nesse setor, caso sejam priorizadas as medidas requeridas para despertar
esse gigante adormecido.
Pôr
outro lado, a atividade de cultivo de camarão marinho vem
se firmando como um dos segmentos da aquicultura que mais tem se
desenvolvido em todo o mundo, cuja participação na
produção mundial de camarão, passou de 30.000
ton (1980) para 733.000 (1994), correspondendo uma exploração
de 1.150.000 hectares, contribuindo para a geração
de 2 milhões de empregos diretos, com um faturamento de US$
6 bilhões de dólares/ano a nível de produtor.
Também
nesse setor, apesar do Brasil, especialmente a região Nordeste,
contar com as excepcionais condições climáticas
e hidrobiologicas, não temos qualquer representatividade
a nível mundial ou mesmo continental. No entanto, quando
se analisa o quadro da produção mundial desse setor,
verifica-se que o Brasil e o mais forte candidato para o desenvolvimento
de uma nova fronteira na produção de camarão
cultivado, haja visto que seus principais concorrentes são:
África e México, uma vez que a Ásia já
atingiu o limite máximo de exploração sustentavel,
sendo que para o Brasil desenvolver esse setor, precisa urgente
de medidas e ações claras e objetivas, no sentido
de atrair os investimentos privados e transformar toda essa potencialidade
em produção, empregos e riquezas, especialmente para
as comunidades litorâneas que hoje enfrentam uma critica situação
de desemprego, haja visto o caos pôr que passa o nosso setor
pesqueiro, onde o Brasil já e o maior importador de pescados
da América Latina, associado a grave crise do setor sucroalcooleiro,
ate então, praticamente a única alternativa de emprego
para essas comunidades. Na realidade, Região Nordeste tem
potencialidade para explorar de 150 a 200 mil hectares com camarão
marinho, o que representaria 250 a 300 mil empregos diretos, com
um faturamento de US$ 2,5 a 3 bilhões de dólares/ano,
números suficientes para transformar o perfil socio-economico
da sua faixa costeira.
No
caso particular do Nordeste. o potencial existente para o desenvolvimento
dessa nova atividade geradora de divisas e empregos, fica evidenciado
não somente pêlos parâmetros ecológicos
e biológicos altamente favoráveis que detém
a Região na sua faixa costeira e nos vales interioranos,
mas tembem, pela existência de espécies nativas de
peixes e camarões com excelente desempenho para o cultivo
em viveiros. Com efeito, a região oferece características
ideais de clima, água e diversidade de espécies. A
importância das referidas características para o desenvolvimento
da aquicultura pode ser demonstrada pelo fato de que, enquanto na
Região Nordeste e viável utilizar eficientemente os
365 dia do ano para a realização do ciclo de cultivo,
tanto de camarão como de peixes, nos países asiáticos
de maior produção, esse parâmetro se deduz a
240 dias . Adicionalmente, assegura a realização do
potencial produtivo do Nordeste, as amplas e bem distribuídas
facilidades de infra-estrutura física ao longo de sua faixa
costeira, no que se refere a energia, estradas, comunicações,
aeroportos e infra-estrutura física ao longo de sua faixa
costeira, no que se refere a energia, estradas, comunicações,
aeroportos e portos de embarques. A localização dos
principais portos da Região, tendo em vista os mercados americano
e europeu, e privilegiada e, portanto, compete a favoravelmente
com os demais exportadores.
Não
obstante as condições altamente favoráveis
da Região Nordeste, as atividades empresariais dirigidas
ao cultivo de peixes e camarões vem sendo desenvolvidas em
termos apenas modestos, quase incipientes, se comparadas com o ritmo
registrado em outras partes do mundo, onde a aquicultura passou
a ocupar um lugar de destaque como produto de exportação
pôr excelência. Esta situação pode ser
atribuída em termos gerais, a falta ou deficiência
dos seguintes elementos:
1 -
Uma política setorial para orientar e priorizar as linhas
de apoio govemamental a atividade produtiva;
2-
Programas de pesquisa em ciência e tecnologia para definir
as alternativas de maior impacto técnico e econômico,
com vistas ao aproveitamento das potencialiades naturais de cada
área;
3-
Uma política ambiental que compatibilize com visão
objetiva, a implantação dos projetos produtivos com
a preservação ecológica dos ecossistemas correspondentes;
4-
Um sistema de intercâmbio tecnológico com os principais
centros de produção em nível mundial;
5-
Incentivos para atrair investimentos do tipo 'joint-venture"
e/ou importação de tecnologia aperfeiçoada,
em setores estratégicos, como nutrição e produção
de equipamentos.
Pôr
tudo isso, o Brasil e, em especial a sua Região Nordeste,
ressente-se de um Órgão de Coordenação
hierarquicamente forte, capaz de identificar, promover e aplicar
as ações pirontarias que se fazem necessárias
para assegurar as bases de um desenvolvimento sustentável
para a atividade de Aquicultura. Nesse sentido, a ação
desse Órgão, poderia ser dirigida, a curto prazo,
para abrir frentes de trabalho com objetivos específicos:
1 -
Elaboração e institucionalização de
um programa regional de desenvolvimento da aquicultura, com diretrizes,
parâmetros, recursos próprios e linhas de ação
que definam a participação e o apoio do Governo Federal
e a contrapartida dos Governos Estaduais e Municipais, bem como
dos empresários interessados na realização
de projetos e investimentos no setor.
2 -
Promoção e realização de um esforço
de articulação junto aos Governos Estaduais para conhecer,
analisar, apoiar e, no possível, harmoniza em termos regionais
as iniciativas questão sendo consideradas e/ou operacionalizadas
no setor de aquicultura em cada Estado:
3 -
Realização de um estudo especifico através
de um grupo técnico multidisciplinar, com a participação
do Governo Federal, dos Governos Estaduais e Entidades Empresariais,
com vistas a:
Estabelecer
os conceitos e as bases que permitam conciliar o cultivo de peixes
e camarões com a preservação do meio ambiente,
tendo presente a necessidade de introduzir mudanças nos atuais
regulamentos e normas federais e estaduais, para possibilitar o
desenvolvimento da aquicultura na Região, especialmente da
carcinicultura marinha cuja rígida legislação
de preservação dos manguezais, vem impedindo o crescimento
desse setor, enquanto vários países que já
adotaram a flexibilizacao dessa legislação (Equador
Tailândia, Honduras, Filipinas, Índia, Indonésia,
Colômbia, México, etc) vem traduzindo essa riqueza
natural em produção. emprego e renda. sem perder de
vista a conservação ambiental, praticando o verdadeiro
conceito do desenvolvimento sustentável. Identificar e recomendar
ao Governo Federal e aos Governos Estaduais e Municipais a adoção
de uma política de incentivos, capaz de atrair os investidores
privados, nacionais e internacionais, especialmente estes últimos,
que tem mostrado especial interesse em transferir capital e tecnologia
produtiva na área de aquicultura para o Nordeste, como já
vem ocorrendo pôr parte de grupos privados de Taiwan, Estados
Unidos, Argentina e Europa.
João
Pessoa (PB), Outubro de 1995
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