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AS
NEGOCIAÇÕES DA COTA DO BRASIL PARA CAPTURA DE ESPADARTE
JUNTO A ICCAT
Getulio de Souza Neiva
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Considerações iniciais.
A Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Brasil abriga um dos maiores
potenciais de produção de atuns e afins, espécies
altamente migratórias que encontram nas águas tépidas
da Corrente do Brasil ambiente favorável para reprodução
e alimentação.
Apesar
de ser uma tradicional pesca do litoral brasileiro, no que respeita
a pesca de pequena escala, é recente a sua exploração
pela pesca de altura nacional. As tecnologias para a captura desses
recursos foram introduzidas e desenvolvidas no Brasil por embarcações
arrendadas japonesas (long-liner); imigrantes e embarcações
arrendadas portuguesas e japonesas (vara e isca-viva).
A viabilidade
da pesca de cerco foi demonstrada por embarcações
espanholas arrendadas, desmitificando a impossibilidade de utilização
dessa técnica em nosso litoral devido à localização
profunda das termoclinas que caracterizam as correntes oceânicas
que ocorrem no litoral brasileiro. Essa pesca, infelizmente, ainda
não é utilizada no Brasil devido às restrições
descabidas de parte do Departamento de Pesca do IBAMA. Recentemente,
uma nova tecnologia de pesca (long-line modificado) foi introduzida
no Brasil, através de embarcações arrendadas
americanas, voltada para a otimização da captura de
espadarte (swordfish, meca) espécie de alto valor comercial.
Tal pesca, por utilizar embarcações de médio
porte, tem despertado o interesse do setor pesqueiro nacional, pela
possibilidade que têm os armadores de adaptarem suas embarcações
ociosas para essa pescaria.
Não
obstante o conhecimento comprovado do grande potencial pesqueiro
para os atuns em nosso litoral, a desorganização institucional
e, de conseqüência, setorial, impediu o nosso avanço
nessa pesca. Não fosse a insistência de algumas empresas
nacionais em arrendar embarcações modernas de outros
países, enfrentando sempre os obstáculos corporativistas
contrariamente injustificáveis de alguns funcionários
do IBAMA, hoje ainda estaríamos pescando atuns através
da pesca artesanal. Há anos, frente a falta de recursos e
incentivos para o setor pesqueiro, vínhamos insistindo juntamente
com a CONEPE (Conselho Nacional das Empresas de Pesca) para que
o IBAMA flexibilizasse a política de arrendamentos de embarcações
estrangeiras por empresas nacionais, com o objetivo maior de ocupar
nossa ZEE e obter capturas de atuns que nos privilegiassem em futuras
negociações de cotas de captura . Desgraçadamente,
a visão estreita e corporativa de alguns funcionários
do Departamento de Pesca e da Diretoria de Pesquisas do IBAMA, tornou-se
enorme obstáculo para o alcance desse objetivo. Recentemente,
graças a sensibilidade para o assunto do atual Presidente
do IBAMA, as autorizações para arrendamento para linheiros
têm sido autorizadas porém vedadas para a pesca de
cerco e vara e isca-viva, por imposição daqueles funcionários.
Enquanto isso, a nossa pesca de bonitos, por falta de embarcações,
limita-se a algo em torno de 20.000 t/ano. Para se ter idéia,
apenas uma empresa francesa (Saupiquet Concarneau),com base em portos
da África,utilizando 17 grandes cerqueiros,operando em estoques
comuns, na área sul do Atlântico Oeste, em 1993, capturou
72.638 t , sendo 30.900 t. de bonitos. A invasão dessa área
de pesca é de tal ordem, por parte de outras nações,
que os estoques de tunídeos já se encontram próximo
ao limite máximo de captura sustentável . Isso significa
que, em breve, novas cotas globais de captura serão impostas
pela ICCAT. Nesta ocasião que cotas vamos negociar? Vamos
aceitar a imposição de cotas "históricas"
irrisórias baseadas nas nossas insignificantes produções
? Esperamos que não. O prejuízo para nosso País
será enorme, se o fizermos. Tratando-se de espécies
altamente migradoras, ocorrentes dentro e fora dos limites da nossa
ZEE, elas são objeto da pesca por partes de nações
pesqueiras desenvolvidas, como Espanha, Japão, EEUU, França,
Coréia, China. Ocorre que os estoques de atuns do Oceano
Mundial, a exceção do Atlântico Oeste, encontram-se
sobre- explorados por esses países que decidiram desviar
parte das suas frotas para essa região. Assim, esse potencial
que poderia estar sendo explotado em sua plenitude pelo Brasil,
está hoje sendo desfrutado pela frota internacional. Com
o descaso governamental ficaremos com as migalhas.
Os
estoques de atuns do Oceano Atlântico Oeste, área do
interesse do Brasil, é gerido por organismo multinacional,
do qual nosso País é membro, denominado ICCAT. O papel
dessa Comissão é analisar as pescarias realizadas
pelos países sobre os estoques das diferentes espécies
de tunídeos e fazer recomendações para que
elas se situem dentro de capturas máximas sustentáveis,
permitindo, assim, a conservação dos recursos.
Tradicionalmente,
o Brasil participa das reuniões técnicas e plenárias.
Nessas últimas são discutidos assuntos de interesse
para o setor pesqueiro das nações como, por exemplo,
o estabelecimento de cotas de captura, por espécie e país.
Neste ano, como já era esperado, em conseqüência
do grande aumento da intensidade e pesca na área por parte
da frota dos países desenvolvidos sobre os estoques de espadarte,
a espécie passou a ser objeto de recomendação
para o estabelecimento de uma produção máxima
sustentável para parte sul do Atlântico Oeste.
Ocorre
que, o nosso representante técnico junto ao ICCAT, funcionário
do IBAMA, elabora seus relatórios para o ICCAT, com base
em informações coligidas no setor pesqueiro, sem jamais
ter se preocupado em elaborar um relatório informativo sucinto
capaz de possibilitar ao setor pesqueiro dados sobre a evolução
das pescarias na área do nosso interesse. Assim, as outras
nações sabem tudo sobre nosso setor pesqueiro e este
encontra-se na ignorância total e nada sabe . Quem quiser
saber tem que perguntar a empresários de outras nações.
Afinal, para que serve nosso representante junto ao ICCAT?
A Reunião
A Comissão reuniu-se em João Pessoa, Pb., entre 15
e 16/07/97, com o objetivo, entre outros, de discutir a aprovação
da cota global de captura de espadarte para a área e a sua
distribuição entre os países interessados.
O Brasil esteve representado por funcionários do IBAMA e
do GESP (Grupo Executivo do Setor Pesqueiro). Não sabemos
quem era o representante brasileiro e se ele detinha credenciamento
para , em nome do Governo, propor ou aceitar cotas de captura para
o Brasil. Poucos representantes do setor pesqueiro fizeram-se presentes
para tentar defender seus interesses, porém, ao que parece,
não mereceram a atenção devida quanto as suas
reivindicações, além de não possuírem
em mãos quaisquer informações sobre a atuação
das demais nações na área comum de pesca.
Infelizmente,
não temos informações mais precisas, vez que
o relatório sobre a reunião, elaborado por funcionário
do IBAMA ( José Dias Neto) não é esclarecedor
e limita-se a tecer loas a atuação da "representação"
do Brasil naquela reunião. É de se estranhar que uma
reunião de tamanho significado, marcada com grande anterioridade,
não tenha sido precedida por outras, convocadas pelo IBAMA,
que possibilitasse a análise detida do assunto por partes
de técnicos, autoridades e representantes do setor pesqueiro
nacional. Ao que tudo indica, os compromissos assumidos pela representação
do Brasil junto a Comissão foram tomados na hora, de afogadilho.
Resultados.
A ICCAT/FAO recomendou, em base aos estudos técnicos, uma
cota global para a área da ordem de 14.620t/ano, a ser distribuída
entre os países que pescam na área.
Os
representantes aceitaram as seguintes distribuições
de cotas por países, para a pesca de espadarte :
Espanha
......................... 40,00%
Japão ............................. 26,75%
Brasil ............................. 16,00%
Uruguai ......................... 4,75%
Outros países membros.. 5,50%
Países não membros....... 8,00%
Discussão
a) Para áreas tradicionais de pesca utilizadas por várias
nações, é costume adotar-se o critério
das médias das capturas históricas dos países
para a distribuição de cotas. Tal critério,
em se tratando de áreas com exploração recente,
como é o caso, é inadmissível e jamais poderá
ser aceita pelo Brasil. Antes das nações desenvolvidas,
que hoje pescam na área sul do Atlântico Oeste, nosso
País já detinha o direito histórico de sua
exploração. A presença ali das frotas pesqueiras
das grandes nações é relativamente recente.
A Espanha , recentemente, por exemplo, deslocou a sua frota bacalhoeira
que operava nas costas do Canadá, e que de lá tiveram
que sair, para a pesca de atuns na área de nosso interesse.
Estamos falando de não menos que 120 embarcações
modernas. Segundo dados colhidos junto do setor pesqueiro, essa
frota chegou a capturar cerca de 40.000 t./ano de espadarte. Tais
cifras de produção puseram os estoques da espécie
em risco o que resultou na necessidade de se estabelecer cota global
de captura para a espécie.
b)
Acresce salientar que o Brasil está saindo de uma grande
crise político-econômica e só agora está
encontrando condições de começar a programar
investimentos setoriais que permitam a exploração
sustentada dos seus recursos naturais. No setor pesqueiro a situação
é calamitosa. Não bastasse a herança que esse
Governo recebeu relativamente ao desmonte do setor - que terminou
enclausurado em um órgão de proteção
do meio ambiente (caso singular no mundo), tornando-se, nesses últimos
anos, o único setor da economia nacional que regrediu , deixando
de ser exportador de produtos para forte importador - nenhum investimento
foi realizado para tirar o setor da estagnação.
Há
que destacar-se, no entanto, algumas medidas que o atual Governo
vem de tomar e que, certamente, deverão influir na sua recuperação,
como, v.g.: a eqüalização do preço do
óleo diesel para a pesca com o preço internacional;
a derrubada dos entraves constitucionais que impediam a instalação
de empresas de pesca estrangeiras no Brasil, com minoria de capital
nacional, não podendo operar embarcações pesqueiras
(ainda não regulamentado); a modificação do
Dec. 68.459/71, que entrava a política de arrendamento de
embarcações estrangeiras por empresas nacionais (ainda
não publicado); a volta para um Ministério da área
econômica, no caso, Agricultura, das atribuições
relativas a atividade e desenvolvimento da pesca, com a esperada
criação de um órgão para gerir o Setor
(ainda não criado). Outras medidas urgentes se fazem sentir
e aqui citamos apenas uma, qual seja, a criação de
uma Escola Técnica de Pesca para formar profissionais (não
doutores) para o exercício das atividades do setor, sem os
quais será impossível absorver e utilizar as modernas
tecnologias utilizadas pelas grandes nações pesqueiras.
O Ministério da Educação deve esse respaldo
ao setor pesqueiro nacional.
Frente
a esse quadro, como pode nosso País negociar de igual para
igual com nações ricas e que rapidamente podem deslocar
frotas modernas para a área sul do Atlântico Oeste,
como vem sendo feito nesse caso, com o objetivo de capturarem o
máximo possível e assim garantirem para si futuras
cotas de captura? Nosso País detém , praticamente,
toda a área de ocorrência de atuns tropicais na zona
sul do Oceano Atlântico Oeste. Se tivermos condições
exploraremos convenientemente os recursos ali existentes. O que
não podemos é abrir mão, para nações
economicamente privilegiadas, de recursos fundamentais para a alimentação
da nossa população, abastecimento das nossas indústrias
e geradoras de riqueza através da sua exportação.
c)
Dados colhidos no Setor e no CEPSUL/IBAMA, dão conta de que
existe em operação na ZEE do Brasil, capturando espadarte,
uma frota nacional composta de 21 embarcações brasileiras
e 15 embarcações estrangeiras arrendadas por empresas
nacionais. Para o próximo ano, deverão entrar em operação,
pois já estão autorizadas pelo IBAMA, 6 embarcações
brasileiras (apenas em Sta. Catarina)que estão se adaptando
para esse tipo de pesca e cerca de 27 outras embarcações
estrangeiras que já estão autorizadas ou com processos
em tramitação para serem arrendadas ou para darem
entrada no IBAMA. Assim, poderemos ter no próximo ano um
total de 69 embarcações na captura de espadarte na
nossa ZEE. Com base nesses dados, fica óbvio que a necessidade
produtiva da nossa frota, hoje, considerando uma produção
média por embarcação da ordem de 150 t./ano,
é da ordem de, no mínimo, 6,300t/ano. Se considerarmos
as embarcações que entrarão na pesca no próximo
ano, essa cifra sobe para 9.000toneladas/ano. Ora, conhecedores
desses dados, como pode o IBAMA/GESP aceitar uma cota de 16,00%
da cota global, ou seja, de 2.340 t/ano ? O que vão fazer
com a nossa frota? Desativa-las? Proibi-las de pescar ? Neste último
caso, como fazer se os espadartes são capturados juntamente
com outras espécies, que ainda não estão sob
contingenciamento e quando recolhidas ao barco dificilmente poderiam
ser devolvidas ao mar com sucesso de recuperação?
Ademais, sem capturar espadarte a pesca é inviável
economicamente.
d)
Não sabemos quais os argumentos defendidos pelos nossos representantes
na reunião. O fato é que eles concordaram em ceder
às nações ricas, sem tradição
de pesca na área, os recursos que pertencem a nossa nação,
com grandes prejuízos para a nossa economia. É o que
se conclui do acordo inicial, esperamos, provisório, que
deu ao Brasil uma cota irrisória de 16%. Por que isso aconteceu
? É óbvio que a representação brasileira
estava despreparada para negociar com os profissionais da Espanha
e Japão, acostumados a degladiarem em foros internacionais
em defesa dos seus interesses. O representante brasileiro tem que
ser um profissional em negociações do Ministério
das Relações Exteriores, coadjuvado pelo representante
do órgão máximo da Pesca (que, infelizmente,
ainda, não existe) e assessorado pelos melhores técnicos
nacionais e pela parte mais interessada, o Setor Pesqueiro Nacional.
A negociação representa perda de US$ Milhões.
Para se ter uma idéia, a tonelada de espadarte desembarcada
no entreposto varia de US$ 6.00 a US$ 8.00 /kg. Agregando-se em
torno de US$2,00/kg de embalagem e transporte aéreo para
Miami, /Nova York, estaríamos falando de cifras entre US$
8.000,00 a US$ 10.000,00 /tonelada exportada. Assim, admitindo-se
uma cota mínima para o Brasil da ordem de 10.000 t/ano, com
bases nas projeções de produção imediatas
da nossa frota, o Brasil estaria perdendo, com a aceitação
da ridícula cota de 16%, algo entre US$ 60.000.000,00 e US$
75.000.000,00 anualmente, apenas com a produção de
espadarte. Adicione-se a essa cifra a perda de empregos, gastos
indiretos, impostos etc. Pode o Brasil perder esses recursos em
conseqüência de negociações mal conduzidas,
principalmente quando o maior prejudicado será o Nordeste
brasileiro, onde são grandes as concentrações
de atuns ?
e)
Tomamos conhecimento, segundo informações dadas por
participantes da reunião, que nossos representantes cederam
em aceitar a cota de 16 % temendo retaliações comerciais
ao Brasil por parte da Espanha e Japão. É inacreditável
que isso possa ter acontecido. Sendo verdade, o que diria o nosso
Presidente sobre isso, quando, recentemente, com toda energia e
diplomacia, defendeu os interesses comerciais do País, em
confronto com a maior nação do mundo? O que, afinal,
esperar de reuniões cujos representantes não são
profissionais gabaritados em negociações internacionais?
Em novembro (14/11) acontecerá em Madrid outra reunião
para , talvez, sacramentar o que foi decidido na reunião
de julho na Paraíba. Como brasileiros, esperamos que sejam
enviados profissionais capazes de defenderem os direitos da Nação
e reverter esse quadro humilhante. Já saímos há
tempos do colonialismo servil.
f)
Somos de parecer que o Brasil deveria defender e garantir uma cota
anual para a pesca de espadarte, dentro dos limites da nossa Zona
Econômica Exclusiva, não inferior a 10.000 t/ano para
a pesca de espadarte, mesmo que no momento não tivesse condições
de capturá-la. À medida que fossemos aumentando a
nossa frota e produção reduzir-se-ia, proporcionalmente,
as capturas dos demais países para compor a cota global.
Proposta semelhante foi feita para a nossa ocupação
da área de pesca do camarão da Região Norte
, onde operavam cerca de 600 barcos estrangeiros e hoje todos que
lá operam são nacionais. Nessa negociação,
da qual participamos como assessor, os profissionais do Itamarati
foram competentes. Relativamente à produção
fora da nossa ZEE, ou seja, 4.620 t/ano, discutiríamos a
sua divisão em cotas com outros países.
Após
essa reunião, outras virão para estabelecer cotas
para albacoras, bonitos, etc. Se cedermos agora, estamos decretando
o limite máximo do desenvolvimento da nossa pesca de atuns
. Não teremos condições de progredir. Perderemos
milhões de dólares, empregos diretos e indiretos e
aceitaremos a condição de importadores de atuns de
países ricos que capturam nos limites da nossa ZEE.
No
momento, aguardamos da Casa Civil os atos necessários para
acabar com o corporativismo oficial que emperra o desenvolvimento
do setor pesqueiro; a indicação de profissionais tarimbados
para representarem o Brasil nas próximas Reuniões
do ICCAT e medidas de estímulo para atração
de capitais de investimento estrangeiros para tornar o Brasil verdadeiramente
uma nação pesqueira. Torna-se urgente, dada a proximidade
da próxima reunião a convocação do representante
a ser indicado pelo Governo , bem como de técnicos e representantes
das empresas que capturam atuns, para se discutir as ações
a serem tomadas em defesa do nosso patrimônio natural pesqueiro.
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